Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Justiça investiga bancos suspeitos de acobertar corrupção no futebol

Blatter indica que Sarkozy obrigou Platini a votar pelo Catar na Copa

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2015 | 10h11

As autoridades da Suíça e dos EUA investigam a participação de grandes bancos no escândalo de corrupção no futebol, inclusive na Fifa. Em seu informe financeiro trimestral, o Credit Suisse admitiu que foi interrogado por investigadores de ambos os lados do Atlântico sobre seu envolvimento no caso. O banco garante que está "cooperando" com a investigação. Mas revela que o processo se refere a "várias instituições financeiras".

No total, os suíços já identificaram mais de cem contas e transações suspeitas envolvendo dirigentes da Fifa. Elas envolveriam pelo menos 150 bancos diferentes e, no Reino Unido, algumas dessas instituições estão sendo já investigadas. A suspeita dos suíços é de que o Credit Suisse teria ajudado em práticas de lavagem de dinheiro.

"Com as investigações pelos EUA e Suíça sobre o envolvimento de instituições financeiras nas supostas propinas e corrupção na Fifa, Credit Suisse recebeu pedidos dessas autoridades relacionadas às relações bancárias com certos indivíduos e entidades associados com a Fifa", indicou o banco. Segundo a instituição, os nomes questionados não seriam apenas aqueles relacionados ao caso dos sete dirigentes presos em maio de 2015, em Zurique.

"As autoridades suíças e dos EUA estão investigando se múltiplas instituições financeiras, incluindo o Credit Suisse, permitiram o processamento de transações suspeitas ou impróprias, ou fracassaram em cumprir regras de combate à lavagem de dinheiro com relação a certas pessoas e entidades associadas à Fifa", admitiu o banco.

No total, o esquema envolveu mais de 150 bancos e, segundo os documentos do indiciamento dos cartolas nos EUA, entidades como o Banco do Brasil com sua sede no Paraguai, e o Itaú, nos EUA, também foram usados pelos dirigentes para suas transações. Em nota emitida à reportagem ainda em agosto, o Itaú Unibanco "esclarece que cumpre suas políticas de compliance e de prevenção à lavagem de dinheiro em todas as suas unidades". "Não compactuamos, facilitamos ou realizamos qualquer ação em descumprimento às leis e regulamentações", indicou. "Cumprimos todas as exigências das regulamentações locais, monitoramos todas as transações e estamos atentos às movimentações em todas as nossas unidades", completou o banco.

CATAR

Parte da investigação se refere ainda à compra de votos para sediar a Copa de 2022. Nesta sexta-feira, em uma entrevista ao jornal Financial Times, o ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, insinuou que foi uma ação do ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, que teria dado a Copa de 2022 ao Catar, num acordo inclusive comercial. "Houve um acordo de cavalheiros", disse Blatter, insistindo que o entendimento era de que a Copa de 2018 ficaria com a Rússia e a de 2022 com os EUA. "As duas superpotências teriam o evento. Foi nos bastidores. Houve um acordo diplomático", contou.

Blatter insiste que se isso tivesse vingado, ele estaria de "férias numa praia hoje". Mas, segundo o suíço, houve uma interferência de último minuto por parte de Sarkozy. O francês teria influenciado Michel Platini a votar pelo Catar. "Uma semana antes das eleições, eu recebi um telefonema de Platini e ele disse: 'Não estou mais com vocês porque foi dito por um chefe de Estado que devemos considerar a situação na França", contou Blatter.

Segundo Blatter, Platini levou consigo mais três votos, que estavam orquestrados para irem para os EUA. A votação acabou com 14 apoios ao Catar e apenas oito para os EUA, que haviam levado para Zurique até mesmo Bill Clinton. Um mês depois, segundo Blatter, o Catar anunciou que estava interessado na compra de aviões de caça da França, o Raffale, da Dassault. Em 2015, o país árabe comprou os 24 jatos por US$ 7 bilhões.

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