Walter Bieri/EFE
Walter Bieri/EFE

EUA vão pedir prisões de mais cartolas do futebol

Chalés nos Alpes são confiscados e 121 contas colocadas sob suspeita: Dois membros da CBF estão sob investigação

Jamil Chade; correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2015 | 10h35

A Justiça dos EUA revelou que vai lançar uma nova operação de prisões e indiciamentos de cartolas ligados ao futebol. O anúncio foi feito nesta segunda-feira em Zurique pela procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch. Em conferência de imprensa na Suíça, ela indicou que tanto dirigentes quanto entidades estarão na próxima rodada de prisões. Segundo os suíços, apartamentos nos Alpes já foram confiscados, além de 121 contas bancárias colocadas sob suspeita.

No dia 27 de maio, a pedido Lynch, a Justiça suíça prendeu sete dirigentes esportivos em Zurique, entre eles o brasileiro José Maria Marin, que aguarda para ser extraditado aos EUA. Ele é acusado de receber propinas em esquemas envolvendo a venda de direitos da Copa do Brasil e Copa América. Nomes como o de Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, até agora não foram citados. Mas descrições que apenas poderiam ser preenchidas pelos dois dirigentes fazem parte das acusações publicadas até agora. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, dois funcionários da CBF, da Fifa e da Conmebol também estão sob investigação. Essa descrição apenas pode ser representada por Teixeira e Del Nero.

Questionada pelo Estado se os novos indiciamentos atingiriam outros brasileiros além de Marin, Lynch evitou dar uma resposta. Mas não negou. "Não podemos dar nomes por enquanto. Mas estamos muito ativos", disse, sorrindo. "Expandimos nossa investigação desde maio e poderemos abrir novos casos contra pessoas e entidades. Nossa investigação continua ativa e se expandiu. A dimensão de nossa investigação não é limitada e iremos seguir as evidências para onde elas nos levar. Baseada na cooperação e novas evidências, antecipamos novas acusações contra indivíduos e entidades", disse a americana. Ela, porém, não colocou datas para as novas prisões e pedidos de indiciamento.

Segundo Lynch, uma série de cooperações foram lançadas com diferentes países. Sobre a cooperação prestada pelo Brasil, a procuradora preferiu não comentar nada. "Recebemos informações de diferentes países e estamos trabalhando com vários deles", disse. "O problema da corrupção no futebol é global e vamos nos manter vigilantes em nosso esforço para ter uma resposta global", disse.

Lynch não excluiu a possibilidade de estar investigando as propinas pagas entre cartolas e a empresa de marketing ISL. Foi o caso que levou à queda de Ricardo Teixeira, o ex-presidente da CBF, apontado em documentos da Fifa como uma das pessoas que recebeu dinheiro num esquema de propinas. Outro envolvido foi João Havelange, ex-presidente da Fifa e que acabou renunciando de seus cargos na entidade e no COI por causa do escândalo. "Nossa investigação é ampla", garantiu.

BLATTER

Um dos focos da investigação é também o presidente da Fifa, Joseph Blatter. Segundo Lynch, a "dimensão" do caso vai "além do que se sabe até agora e um dos focos são os acordos comerciais realizados. "Mas estamos olhando para outros aspectos também." O Ministério Público suíço confirmou que investiga um contrato assinado pelo próprio Joseph Blatter repassando a um ex-aliado os direitos de TV para a Copa de 2010 e 2014 por um valor 5% do que depois seria revendido. Questionada se Blatter estaria ameaçado se viajasse, Lynch ironizou. "Eu não vou comentar sobre a agenda de viagens de Blatter."

Lynch ainda fez um apelo para que "todos os envolvidos no futebol estejam comprometidos com a reforma e que cumpram o estado de direito".  Ela também não poupou críticas a antigos modelos de administrar o esporte. "Para qualquer um que tente viver no passado e recolocar o futebol de volta aos tempos da corrupção e propinas, apadrinhar, a resposta global manda uma clara mensagem: vocês estão do lado errado do progresso e não fazem um serviço à integridade do esporte".

CHALÉS

Michael Lauber, procurador-geral da Suíça, confirmou que o processo avança. No total, 121 contas bancárias foram identificadas como sendo suspeitas. Segundo ele, buscas e apreensões foram realizadas em casas na Suíça e mais evidências foram coletadas. "Quando necessários, dinheiro foi confiscado, além de apartamentos nos Alpes suíços", alertou o procurador. "Investimentos em imóveis podem ser usados para lavagem de dinheiro".

Os bancos, segundo Lauber, estão colaborando e repassando à Justiça informação sobre os casos. Mas ele evita dar nomes dos envolvidos. "Ainda é cedo para dizer o nome das pessoas que tiveram os ativos confiscados", justificou. "Mas posso dizer que novas pessoas foram questionadas e obtivemos mais informações", explicou. No total, a Justiça suíça conta com 11 terabites de dados coletados.

Lauber também admite que não está nem na metade do processo. "Esse caso vai levar mais que os 90 minutos tradicionais de um jogo. Mas não estamos nem no intervalo da partida", disse. Lauber admite que está tentando acelerar o caso. Mas se queixa de que nenhum outro país pediu a cooperação da Suíça, o que tem dificultado o avanço em alguns pontos do processo. "Alguns dos suspeitos não vivem na Suíça", ressaltou. Nesta segunda, Lynch ainda alertou que nenhuma instituição ou pessoa ficará isenta do combate à corrupção ou acima da lei. "Com a ação (contra a Fifa), deixamos abundantemente claro que procuradores de todo o mundo vão se unir para acabar com a corrupção e levar os criminosos à justiça, seja onde estiverem, seja qual for a complexidade dos crimes e seja qual for o poder que tenham", disse. "Nossa mensagem é clara : nenhum indivíduo está acima da lei. Nenhuma organização corrupta está fora do alcance. E nenhum ato criminoso pode escapar de um esforço coordenado de homens e mulheres lutando pela Justiça." 

Segundo ela, a corrupção 'mina nossos valores' e 'abala as fundações de nossa sociedade global'. Lynch deixou claro que a ação contra a Fifa apenas foi possível graças a uma coordenação com o Ministério Público dos EUA e de representantes de outros países. "Isso expôs altos funcionários da Fifa, líderes de organizações regionais, empresas que pagaram milhões de dólares por direitos de torneios internacionais." A americana indiciou Marin por pelo menos dois crimes: corrupção na Copa do Brasil e envolvimento em distribuição de propinas na Copa America.


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