Alex Silva/Estadão Conteúdo
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CPI da Covid quer saber se governo e CBF negociaram liberação de jogadores argentinos no Brasil

Vice-presidente da Comissão, senador Randolfe Rodrigues disse que enviará ofício à entidade máxima do futebol brasileiro para investigar possível acordo com alguma autoridade do País para realização da partida

Brenda Zacharias e Levy Teles, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 20h53

O vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) informou pelo perfil no Twitter neste domingo, 5, que irá enviar requerimento à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para saber com quem teria sido feito um suposto acordo para burlar as regras sanitárias da Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mais cedo, o senador havia tuitado que a interrupção foi um “gol” da Anvisa.

Agentes do órgão e da Polícia Federal interromperam o clássico contra a Argentina, válido pela nona rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo, por conta da presença de quatro atletas da equipe albiceleste que descumpriram as regras sanitárias em território brasileiro. A Anvisa afirmou, em nota, que na tarde de sábado, 4, em reunião com representantes da Conmebol, da CBF e da delegação argentina, recomendou a quarentena dos quatro jogadores argentinos.

Com a suspensão do confronto, outros políticos brasileiros se uniram na defesa à postura da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas discordaram nos rumos que a história deveria levar. Membros da oposição aproveitaram a brecha para criticar a condução da pandemia por parte do governo federal, enquanto a base tenta jogar a responsabilidade nos atletas do país vizinho.

O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), filho do presidente, chamou os argentinos de “malandros” e acusou a equipe de escalar “na marra” os jogadores irregulares. “PF tem que investigar quem não tomou providências antes do jogo e Argentina deveria ser severamente punida”, publicou em seu perfil no Twitter.

Em resposta a um usuário que escreveu, em espanhol, que com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) este imbróglio não aconteceria, Flávio disse: "¡Pelé es más grande que Maradona! (Pelé é maior que Maradona)”.

O irmão dele, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), compartilhou em seu perfil no Twitter uma mensagem de uma usuária que ataca o narrador Galvão Bueno. “Canalha, tentando culpar o Governo Federal, dizendo ser uma Vergonha Mundial o que estava acontecendo, até saber que a Anvisa orientou os jogadores a se isolarem e a Argentina descumpriu as regras”, dizia o texto.

Na oposição, predominam as ideias de que a falta de gestão de Bolsonaro corroborou para a falha da Anvisa na admissão dos atletas em território nacional e de que houve ausência na resolução do problema nos bastidores. “Não há dúvida de que houve erro grave dos dirigentes esportivos da Argentina. Mas não haveria o vexame explícito no estádio, se não ocorressem obscuras transações nos bastidores, envolvendo dirigentes esportivos e algumas autoridades brasileiras”, escreveu o ex-ministro e candidato à Presidência da República, Ciro Gomes (PDT).

O ex-presidente da Câmara dos Deputados e atual Secretário de Projetos e Ações Estratégicas de São Paulo, Rodrigo Maia, cobrou maior rigor da agência em eventos promovidos pelo presidente Bolsonaro. “Vamos esperar que a Anvisa tenha a mesma firmeza em relação às regras sanitárias nos eventos promovidos pelo presidente, sem máscara e vacina”, escreveu ele no Twitter.

Membro da CPI da Covid, o senador Humberto Costa (PT-PE) questionou, ainda durante a interrupção da partida, se dariam seguimento ao jogo e destacou a infração dos atletas argentinos. “QUATRO atletas da Argentina MENTIRAM para as autoridades e cometeram 2 infrações sanitárias gravíssimas. Os jogadores são: Emiliano Martínez, Buendía, Cristian Romero e Lo Celso. A ordem é a IMEDIATA quarentena desses jogadores.”

Entenda o caso

Ao desembarcarem no aeroporto de Guarulhos (SP), os jogadores argentinos foram questionados se tiveram passagem pelo Reino Unido, pela África do Sul, pela Irlanda do Norte ou pela Índia nos últimos 14 dias. Desde junho, passageiros provenientes destes quatro países no período de duas semanas são impedidos de entrar no País. A equipe havia enfrentado a Venezuela na última quarta-feira, na casa dos adversários.

Emiliano Martinez, Emiliano Buendia, Giovani Lo Celso e Cristian Romero, três desses titulares no jogo deste domingo, atuaram em partidas do campeonato inglês há uma semana e deveriam, portanto, ter sido impedidos de entrar no Brasil. A entrada deles no País foi considerada ilegal, e a Anvisa notificou a Polícia Federal orientando medidas que impeçam a circulação dos argentinos.

“Eles, ao chegarem em território nacional, apresentam a declaração de saúde do viajante. Neste documento não falava que eles passaram por um dos três países que estão restritos, justamente para a contenção da pandemia. Mas depois foi constatado que eles passaram pelo Reino Unido", disse o diretor-presidente da Anvisa Antonio Barra Torres.

Em nota, a CBF nega que “interferiu em qualquer ponto relativo ao protocolo sanitário estabelecido pelas autoridades brasileiras para a entrada de pessoas no País”. Ainda segundo o comunicado, a entidade diz que atuou “na tentativa de promover o entendimento entre as entidades envolvidas para que os protocolos sanitários pudessem ser cumpridos a contento e o jogo fosse realizado.”

De acordo com a Conmebol, a partida foi suspensa por decisão do árbitro. Ele e a comissão enviarão um informe à Federação Internacional de Futebol (Fifa) para decidir quais serão os próximos passos.

A Associação de Futebol Argentino (AFA), expressou, em comunicado oficial, um “profundo mal estar” pela suspensão do jogo. “Assim como a CBF, a AFA se encontra surpresa pela ação da Anvisa assim que iniciada a partida.”

A suspensão do jogo ganhou repercussão internacional. O Olé, diário esportivo da Argentina, considerou o episódio como um “papelão mundial”.

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