CPI debate futebol de várzea

O debate que a CPI da CBF/Nike realiza nesta terça-feira parece mesmo diferente. Criada para investigar o contrato que a multinacional de material esportivo a Nike mantém com a entidade "mãe", do futebol brasileiro, a CBF, a CPI já esmiuçou passaportes falsificados; adulteração de certidões de nascimento, na maioria das vezes para reduzir a idade do atleta; tráfico de adolescentes para o futebol internacional; além da desorganização total na contabilidade da CBF e suas federações, clubes e entidades esportivas. Hoje, a CPI debate o futebol de várzea, ou futebol amador como preferem os profissionais da área, como o jornalista Flávio Adauto Iório, um dos convidados de logo mais à tarde, na comissão, que adiantou à Agência Estado, parte de sua conferência. O discurso que Iório trouxe para a CPI pretende causar impacto. Ele vai começar chamando a atenção dos deputados para a especulação imobiliária, "como principal razão para a quase extinção dos campos de futebol nas zonas mais nobres da cidade". Na platéia estarão alguns dos dirigentes de clubes da elite do futebol brasileiro, como os deputados Eurico Miranda (PPB-RJ), que preside o Clube de Regatas Vasco da Gama e o presidente do Sport Clube do Recife, deputado Luciano Bivar (PSL-PE). "Os novos empreendimentos imobiliários buscam os espaços maios valorizados e nobres da periferia", onde funcionam um dos maiores laboratórios de craques do País, os campos de várzea. "Essas áreas são tratadas com desprezo, como se fossem intrusas e truncassem o desenvolvimento", diz Iório. O jornalista também estará munido de uma vasta literatura sobre a importância do futebol e dos campos de várzea e de estatísticas que, se de um lado apontam o avanço imobiliário, de outro mapeia, só na capital paulista, mais de quatrocentas áreas "disponíveis para a prática de futebol ou para formas diversas de lazer". Segundo os seus dados, 36 centros esportivos do município "com campos de futebol, ginásios de esportes, piscinas", estão sem qualquer conservação e "bem que poderiam ser utilizados pelas populações mais pobres", afirma Iório. "Aquela comunidade que não pode freqüentar clubes bem equipados". Para o jornalista, a cidade de São Paulo possui, ainda, mais de duzentas áreas exclusivas para a prática de futebol, "todas elas administradas por clubes amadores, de várzea ou sociais", lembra. Uma das principais preocupações da palestra de o jornalista Flávio Adauto Iório será propor à CPI a elaboração de leis que impeçam a degradação dessas áreas hoje utilizadas pelo futebol de várzea. "Com medidas práticas, incentivos fiscais, que permitam a manutenção e preservação do que restou", destaca. Flávio Adauto Iório louva a iniciativa da CPI em passar a limpo o futebol brasileiro, mas pondera, "só não dá para entender como estejam preocupados com o topo da pirâmide, quando a base não recebeu sequer uma moção para ser preservada", salienta o jornalista que promete "brigar" na CPI por mais espaço no relatório do deputado Silvio Torres (PSDB-SP) para o tema do futebol de várzea "ou futebol amador, como estamos acostumados a falar", conclui Iório. Para a audiência pública desta terça-feira, marcada para começar às 14h30, foram convidados também para o debate "O Futebol de Várzea", o prefeito de Taboão da Serra (SP), Fernando Fernandes Filho; o empresário José Carlos Tobaldini; o secretário de Esportes de Americana (SP), José Fioque; e o advogado Wallace Nogueira Rocha.

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