Lee Smith/Reuters
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CR7 e Messi deram um 'toco' na ditadura saudita. O Newcastle abriu as portas

Com projeto de 'sportswashing' em marcha, Arábia Saudita tentou acordo com os dois craques, que recusaram oferta, segundo jornal inglês. Mas não importa. Agora o país tem um clube para chamar de seu na Premier League

João Abel, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2021 | 17h37

A venda do Newcastle United, um dos mais tradicionais clubes da Inglaterra, para o Public Investment Fund (PIF), Fundo Público de Investimento, da Arábia Saudita, catapultou o time, que hoje ocupa a vice-lanterna da Premier League, às manchetes dos tablóides britânicos como o novo ‘clube mais rico do mundo’. Como se um elefante tivesse sido jogado no lado oposto da gangorra.

E a alcunha de ‘mais rico’ não é enganosa. A negociação foi fechada por um valor até ‘modesto’: 305 milhões de libras (cerca de R$ 2,2 bilhões) por 80% da equipe. 

O que salta aos olhos é o montante de dinheiro do Fundo Público saudita: mais 320 bilhões de libras. Ou US$ 436 bilhões. Ou R$ 2,4 trilhões. Trilhões com T de torcida. É maior do que o PIB da Argentina em 2020, que ficou em R$ 2,2 trilhões. 

O aperto de mãos entre os Magpies, como é conhecido o Newcastle, e o fundo saudita desagradou, é claro, todos os outros 19 clubes da Premier League. Além de temer uma bolha de transferências na próxima janela e, especialmente caso o clube atinja as ligas europeias no futuro, os times do torneio ainda argumentam que o negócio causa prejuízo à imagem do futebol inglês.

Houve críticas, por exemplo, por grupos como a Anistia Internacional. Afinal, o Fundo Público é administrado pelo estado saudita, que, por sua vez, é controlado pelo príncipe Mohammed bin Salman. Um chefe de Estado acusado de diversas violações de direitos humanos e de autorizar o assassinato do jornalista norte-americano Jamal Khashoggi, crítico de seu governo.

A liga inglesa recebeu garantias de que a administração do Newcastle será independente da ditadura árabe, sem interferência de Salman. Mas a verdade é que existe um projeto em curso na Arábia Saudita para usar o esporte a favor do governo.

Algo que temos chamado recentemente de sportswashing.

O termo em inglês, que une basicamente as palavras esporte + lavagem, serve para descrever os casos de multimilionários que injetam dinheiro em clubes, campeonatos e instituições esportivas para ‘limpar sua imagem’. Ou apenas para promovê-la.

É o caso saudita. Segundo um relatório da organização pelos direitos humanos Grant Liberty, divulgado em março deste ano, o governo do país já tinha gastado ao menos US$ 1,5 bilhão com sportswashing. Desse montante, quase metade (US$ 650 mi) em um contrato de dez anos com a Fórmula 1, outros US$ 145 mi em um acordo com a Associação de Futebol da Espanha para promover o esporte no país do Oriente Médio. E o restante em outros torneios e entidades esportivas.

Até Cristiano Ronaldo e Lionel Messi foram alvos do projeto de sportswashing saudita. No início deste ano, o diário londrino Telegraph divulgou que ambos recusaram uma oferta de cerca de 6 milhões de euros (R$ 38 milhões) por ano para promover a nação governada por Salman. Além de ceder o uso da imagem, os dois craques teriam que visitar o país, em uma agressiva estratégia para incentivar o turismo no local.

Mas o príncipe Bin Salman não é o primeiro nem será o último a usar o futebol como produto de limpeza da sua reputação. 

Colado na Arábia Saudita, o Catar aprendeu alguns anos antes que essa era uma estratégia interessante. E já em 2010 foi ‘escolhido’ sede da Copa. Uma escolha bastante controversa e feita, segundo investigação do jornal britânico The Sunday Times, após o país abrir o bolso e pagar US$ 880 milhões à Fifa.

Mas receber o mundial não era suficiente para o ambicioso projeto catari. No ano seguinte, o atual emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani, comprou o Paris Saint-Germain por cerca de 100 milhões de euros, na cotação da época. Uma transação feita por meio da Qatar Sports Investments, um braço do Fundo Público de Investimentos nacional. 

Foi o pontapé inicial que levou o time à soberania na França, ainda que sem nenhuma Liga dos Campeões até então, e, neste ano, à contratação mais impactante da temporada: a transferência de Lionel Messi, do Barça para o PSG.

Mas nem sempre é preciso comprar os clubes. Um belo patrocínio já pode configurar estratégia de sportswashing. É o caso do Arsenal, por exemplo. Os gunners recebem uma grana alta, mais de 10 milhões de libras por ano, do governo de um dos países mais pobres do mundo: Ruanda.

Quando assistir aos jogos do Arsenal, repare. ‘Visite Ruanda’ está estampado nas mangas da camisa do time e nas placas de publicidade em torno do campo. Se um dia tiver a oportunidade de ver um jogo in loco no Emirates Stadium, talvez você até veja o presidente de Ruanda por lá. Paul Kagame tem um camarote próprio no estádio.

E, no início desta temporada, quando o Arsenal perdeu para o modesto Brentford, na rodada inaugural da Premier League, ele esbravejou em seu Twitter: “Um time deve ser construído com o propósito de vencer”.

Estes são apenas alguns exemplos de países que têm usado clubes europeus para ampliar sua visibilidade internacional.

Na Inglaterra, todos os clubes da elite tem um proprietário. E não um presidente eleito como acontece no Brasil até o momento. Aqui uma ficha breve de cada um desses 'donos'.

Repare que eles vêm de diversos locais: Emirados Árabes, Itália, Rússia, China, Tailândia, EUA. O jogo geopolítico de poder agora coloca mais uma convidado à mesa. E permite que a Arábia Saudita, um país aliado de primeira hora de potências ocidentais como os Estados Unidos, compre o Newcastle. A despeito de todas as violações de direitos humanos do regime saudita, a negociação se arrastou, gerou críticas e acabou efetivada. Dificilmente será desfeita. 

E já se faz até a lista de reforços que poderiam pintar. Philippe Coutinho, Gareth Bale, Dembélé. Por que não sonhar com Mbappé? Já há torcedores fazendo campanha nas redes pela contratação do francês.

Torcedores estes que celebraram em frente ao estádio St. James Park a negociação com o Fundo Público saudita. Já não aguentavam mais ver o time nas mãos do bilionário britânico Mike Ashley, sem conseguir grandes resultados esportivos. Agora, com a injeção de dinheiro da monarquia de Salman, eles podem vir. Mas a que custo? Vale a pena brigar por títulos se vendendo a uma ditadura?

Por enquanto, os fanáticos pelo Newcastle não estão muito preocupados com isso e sim com o futuro promissor do ‘novo rico’. Money talks, bullshit walks. And Newcastle wins. É só o que importa.

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