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Crer no futebol

Carille e Fernando Diniz são os astros desse Corinthians e Flu pela Sul-Americana

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2019 | 04h00

Diante do desânimo, angustia, tristeza e desalento que vejo ao meu redor, qualquer pensamento de crença no futuro não é mais do que uma piada trágica, uma ironia sinistra. Apesar disso, olho para o futuro e, mesmo no futebol, meu pensamento vai para ele. Por exemplo: na procura de bons jogos para ver, me deparei com um que atraiu muito minha atenção. 

É um jogo que ainda vai acontecer, portanto, no futuro, pois será no dia 22. Não, não se trata de mais um Real Madrid x Barcelona ou qualquer outro jogo na Europa que causa arrepios de satisfação em tantos brasileiros e tanta vontade de estar lá fora em outros. É um modesto jogo da Copa Sul-Americana, competição quase tão desconhecida e desdenhada no exterior como o próprio continente.

Nesse 22 vai se travar o primeiro jogo entre Corinthians e Fluminense pelas quartas de final da competição, e que fará o vencedor avançar até as semifinais. Falo dessa partida desdenhando um pouco do jogo de volta no Maracanã. Algo me diz que as coisas vão se decidir na arena do Corinthians. 

O que tem esse jogo de particularmente interessante, na minha opinião, são os dois treinadores e suas ideias a respeito do que é o futebol. Tanto Carille quanto Fernando Diniz são as verdadeiras atrações do jogo. Tenho visto os dois times jogarem ultimamente. O Corinthians joga prudentemente, fazendo predominar a defesa, lutando primeiro para não tomar gol. Mas não é, como tantos times por aí, uma equipe que ataca sem ordem, ao contrário. 

Carille, de maneira sutil, sabe golpear, inclusive porque sabe que é necessário golpear para obter resultado. Mas, como dizia, correndo o mínimo de riscos. Sabe os jogadores que tem e o que esperar deles. Apesar de ter começado como assistente de Tite, e ao que me informam, o encarregado, nos treinos, de montar a defesa, acho um exagero classificá-lo como um treinador sem imaginação ou inventividade. É filho do futebol do sul, isso inegavelmente. Vem da família de Tite, Mano Meneses, agora acrescida de Hellmann, gente que defende primeiro e ataca depois, mas sem abdicar do futebol. 

Diniz, ao contrário, tem algo de praia e mar na sua maneira de jogar, algo, aliás, que era a característica fundamental do futebol brasileiro até recentemente e que agora parece perdida. Aceita o risco e até o prefere. Sua intenção é jogar da maneira mais criativa possível. É chegar ao gol pela virtude de seus jogadores e não do acaso ou da força. Tem uma marca pessoal definida há longo tempo, não escolhe rivais, não joga com o regulamento, talvez seja o único no Brasil cujas equipes são imediatamente identificáveis desde os primeiros movimentos por qualquer torcedor atento. Jogam do mesmo modo com o mesmo destemor. Pode ser o modesto mas empolgante Ajax. Ou equipes poderosas no futebol como o Athletico-PR ou o Fluminense atual. 

A vitória nunca está garantida para os times de Diniz. O futebol está. Pode-se ver um jogo após outro a equipe jogando com classe, categoria e sem chutões ou bicos, que, ao contrário do que muita gente pensa, não servem para nada. Quem vai a uma partida do Fluminense pode estar certo de que vai ver jogo. 

Confesso que prefiro Diniz a Carille, não posso negar. Vi muito futebol bonito, sofisticado e criativo na vida para nessa altura abrir mão das minhas lembranças. Mas não desprezo o treinador do Corinthians de maneira nenhuma. A defesa tem seus encantos como já escrevi muitas vezes. Só não pode ser apenas defesa. 

E isso Carille não faz. No dia 22 vamos ver dois técnicos jovens frente a frente. E tenho certeza de que vamos ver futebol. Não jogado igualmente de um lado e de outro, mas, e isso certamente, será um dos encantos do jogo, serão obrigatoriamente diferentes. E viva a diferença!

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