Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Crianças adoram camisa amarela da seleção e não implicam com Neymar

No Brasil infantil, futebol não tem nada a ver com crise política e a Copa do Mundo é uma grande festa

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2018 | 00h00

No Brasil das crianças, futebol não tem nada a ver com crise política, todo mundo quer vestir a camisa amarela e ninguém implica com o Neymar - a não ser as críticas bem humoradas ao cabelo “que parece macarrão”. A Copa do Mundo é uma grande festa e a seleção brasileira, um orgulho sem ressalvas. 

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Tudo começou com a febre do álbum de figurinhas, que fez com que até os pequenos decorassem nomes de atletas como Aleksander Kolarov, da Sérvia. E, quando as equipes iam ficando completas na publicação, aumentava a ansiedade pelo início do Mundial de verdade. “Um dia antes de começar a Copa, fiquei acordado até meia noite”, conta Rodrigo Ramos, de 10 anos. “Quando deu meia noite e um, falei: pronto, chegou o dia da Copa. Agora, já posso dormir.” Era como se fosse noite de ano-novo.

Vestido com a camisa 10 do Brasil, o brincalhão Micael Klein, de 8 anos, pede para ser chamado de Neymar durante a conversa com o Estado. A camisa é a do craque. Ao ser questionado se seu cabelo pintado de loiro nas pontas é uma homenagem ao jogador, responde sério: “Não, ele que me imitou, fiz primeiro”. No grupo da Escola Municipal João Domingues Sampaio, na Vila Maria, zona norte de São Paulo, não há dúvidas sobre o desempenho do meia brasileiro. “Empurram muito o Neymar, é difícil jogar assim”, justifica Carlos Diógenes de Jesus, de 8 anos, que veste a camisa argentina de Messi “só porque a do Brasil está lavando”. 

E ai de quem diz que eles nunca viram a seleção brasileira ser campeã. “Claro que vi, pelo YouTube”, explica Micael. Também não titubeiam sobre quem leva a taça este ano. “A gente, óbvio.” Os meninos repetem em coro os nomes complicados das cidades russas que são sede dos jogos. A escola decidiu que não vai fechar hoje, dia da partida do Brasil, para que todos assistam juntos. Outras instituições de ensino da capital - particulares e públicas - farão o mesmo. 

 

SEM ESTOQUE

Apesar de muita gente acreditar que a camisa da CBF ganhou significado político nos protestos no País, dados da Nike mostram que o modelo infantil está em alta. Com pouco mais de uma semana de Copa, só há 15% do estoque nas lojas (8 a 12 anos), desempenho considerado “acima da expectativa” pela empresa. Já os kits completos para crianças, com camiseta, calção e meião, estão praticamente esgotados.

Na sala do 1.º ano do Colégio Oswald de Andrade, na zona oeste, boa parte dos meninos aparece todo dia com o uniforme completo de futebol. O interesse é tanto que a professora teve de interromper a hora do lanche para passar no computador o gol de Cristiano Ronaldo, que havia acabado de acontecer. Por causa da média de idade de 6 anos, é o primeiro Mundial que o grupo acompanha. Desde maio, todas as festinhas de aniversário de crianças da classe tiveram a Copa como tema. “Eles sabem muito mais do que eu, sempre dizem quem está jogando e perguntam toda hora os resultados”, diz a professora Laura Pimentel, de 35 anos. 

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Eles sabem mais do que eu, sempre dizem quem está jogando e perguntam sobre resultados.
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Laura Pimentel, professora

Sentadas em roda, crianças que estão ainda se alfabetizando discutem com seriedade o uso do árbitro de vídeo (VAR). O erro ao validar o gol da Suíça no primeiro jogo do Brasil é unanimidade entre os comentaristas mirins. “O juiz não falou nada quando empurraram o Miranda, foi injusto”, diz Jorge Costa Kato, de 6 anos, vestido de verde e amarelo. “Ele nem usou a tecnologia”, concorda o amigo Pedro Buosi, também de 6 anos. O pai de Jorge, o arquiteto Cristiano Kato, de 41 anos, diz que não se sente à vontade para usar a camisa do Brasil, mas que não influencia o filho. “Ele não precisa saber das questões políticas, para ele é um festa das nações, de culturas.”

No 3.º ano do colégio, as meninas percebem outras alegrias no Mundial. “Na família, tem gente que torce para o Corinthians e outros que não. Agora, é o momento que todo mundo torce junto”, diz Isadora Villas Boas, de 8 anos. “A gente vai à casa da avó, se enrola na bandeira do Brasil e corre para ver no álbum os jogadores que aparecem na TV”, completa Marina Ciavolella, também de 8. 

Para a educadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Maria Angela Barbato Carneiro, a empolgação das crianças é positiva e até pedagógica. “Envolve a fantasia, o imaginário, além de levantar discussões sobre ganhar e perder, respeito, regras.” Para ela, os pais não precisam discutir a crise no País com os filhos nesse momento. “O orgulho e a esperança deles são algo importante.”

Segundo pesquisa Datafolha feita dois dias antes do início da Copa, o desânimo do brasileiro - adulto - atingiu recorde histórico: 53% disseram não ter nenhum interesse no Mundial. Em 1994, quando o Brasil não ganhava um título há mais de 20 anos, o índice era de só 20%. “Quem sabe até o fim da Copa eu compre uma bandeirinha do Brasil pra ele”, diz a autônoma Pricila Barretos Blum, de 44 anos, referindo-se ao filho Pedro, de 10 anos. Ela não enfeitou de verde e amarelo nem a casa nem o carro, mas o menino é fanático pela seleção. “Ele grita na janela: ‘vai, Brasil’. A situação está muito difícil, mas eu entendo que o esporte é importante pra ele.”

A publicitária Larissa Lublinski, de 46 anos, ficou surpresa quando viu a filha Sofia, de 8, colocar o despertador para as 7 horas da manhã do sábado. A menina não queria perder o jogo de França e Austrália. “Eu não tenho paciência, mas ela assiste tudo, depois vê os gols que perdeu no aplicativo.” Sofia analisa o desempenho dos times até agora e conclui que é vitória certa do Brasil. “Rússia está indo bem, Egito não, só tem o Salah, Portugal sem Cristiano Ronaldo não é nada”, diz a menina. “A melhor coisa da Copa é que a gente se sente especial.”

 

 

 

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