Juan Medina/Reuters
Vinicius Junior foi negociado aos 16 anos com o Real Madrid, ficou no Flamengo até os 18 e rendeu R$ 165 mi ao clube. Juan Medina/Reuters

Crias da base enchem os cofres dos clubes brasileiros

Importância da receita obtida com a venda de jogadores jovens vem crescendo no Brasil

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2019 | 04h30

Destinadas a descobrir e formar jogadores, as categorias de base estão se tornando uma eficiente e segura fonte de renda para os clubes brasileiros. Nos últimos anos, cresceu o número de jovens negociados, quase sempre para o exterior. As “fábricas de talento” têm importância cada vez maior no planejamento financeiro das agremiações.

A ida de jogadores ainda em fase de formação para o exterior ocorre há décadas. Em 1994, por exemplo, Ronaldo foi do Cruzeiro para o PSV com 17 anos. No entanto, esse tipo de transação vive um “boom” desde o início de 2016, recheando os cofres dos clubes nacionais.

Alguns atletas são vendidos mesmo antes de completarem 18 anos, casos de Vinicius Junior (Flamengo) e Rodrygo (Santos), e não podem ir imediatamente. Outros, nem chegam a jogar no time de cima. Mas o dinheiro começa a entrar na conta corrente do vendedor no momento da transação.

Para os clubes brasileiros, negociar os garotos é bom reforço de caixa, que muitas vezes dá fôlego de meses nas finanças. Alguns deles andam faturando mais com a venda de jovens do que em patrocínio e bilheteria.

O Estado fez um levantamento dos principais negócios envolvendo garotos nos últimos dois anos (informações na arte abaixo). Constatou que o Flamengo, onde recentemente ocorreu o incêndio no alojamento da base que matou dez meninos, foi, de longe, o que mais faturou – os valores estão em reais com base na cotação da época das vendas. Grêmio e São Paulo também registraram receitas significativas.

Vale ressaltar que em vários casos o clube não tem direitos econômicos absolutos sobre o atleta e, portanto, não fica com o valor total da negociação.

Mas os clubes contam com esse dinheiro. O Flamengo colocou na sua previsão orçamentária para este ano o ingresso de R$ 70 milhões em vendas de atletas; o São Paulo, R$ 120 milhões. Claro que neste cálculo não estão apenas jogadores que foram formados na base, mas eles têm participação importante. Há, porém, o risco de a previsão não se confirmar. “Venda é difícil prever. Por melhor que seja a sua fábrica de talentos, você não garante que vai aparecer todo ano um jogador de qualidade que desperte interesse”, alerta Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM.

Há clubes que já perceberam esse risco. Por isso, estão procurando reduzir a dependência das vendas dos talentos que formam. O Grêmio, que nos últimos anos negociou cinco jovens, entre eles Arthur por R$ 140 milhões para o Barcelona, caminha nessa direção, segundo seu presidente, Romildo Bolzan Júnior. “O Grêmio já foi mais dependente. Três, quatro anos atrás, precisava vender R$ 80 milhões. Em 2019, a necessidade é de R$ 36 milhões.” Mas ele admite: “Esse planejamento da base é fundamental para a sobrevivência dos clubes.”

Bolzan, porém, ressalta que a filosofia do Grêmio é, sempre que possível, ter primeiro um ganho esportivo com o atleta formado para depois negociá-lo e obter um ganho financeiro.

Negociar jovens traz outro benefício. Em venda posterior, o clube recebe porcentagem pelo mecanismo de solidariedade da Fifa como formador. É o caso do São Paulo com Eder Militão. Vai receber cerca de R$ 5,6 milhões (2,8% por formar) da ida do jogador do Porto para o Real Madrid –, além de pelo menos outros R$ 21,3 milhões porque detinha 10% dos direitos. Militão foi vendido pelo clube para o Porto por R$ 17,7 milhões.

PRÓXIMA JANELA

A negociação de jovens deverá ser retomada com mais força no meio do ano. A Europa já prepara nova garimpagem nos clubes brasileiros. O Milan está de olho nos corintianos Pedrinho, 20 anos, e Fabrício Oya, 19, que mal jogou no time de cima. E o Real Madrid corteja outra revelação do Flamengo. É Reinier, de 17 anos, por quem os espanhóis estariam dispostos a pagar nada menos do que R$ 308 milhões.

Lei só permite ida para o exterior com 18 anos

O estatuto de transferência da Fifa proíbe, em seu artigo 18, que jogadores sejam envolvidos em negociações internacionais antes de completar 18 anos. Por isso, há casos como os de Vinicius Junior e Rodrygo, que foram vendidos ao Real Madrid antes dessa idade, com a transferência só se concretizando efetivamente ao atingirem a maioridade. Outro problema que “força” os times brasileiros a negociar jovens é que, pela lei internacional, o contrato com menores de idade tem prazo máximo de três anos. Assim, há casos em que os clubes correm risco de perder seus jogadores, de graça, aos 19 anos.

Três perguntas para Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM

1. Como o senhor analisa esse movimento dos clubes?

Primeiro tem a questão da globalização do mercado. Antigamente acontecia menos porque o futebol movimentava menos dinheiro e também não tinha essa visibilidade do jogador, com as diversas plataformas para observá-lo que se tem hoje. E também é uma decisão financeira do clube. Existe uma lógica que acaba sendo financeira.

2. Além do aspecto financeiro, é bom negócio?

É ruim você vender um atleta como Vinicius Junior por milhões de dólares para o exterior? Claro que não. É maravilhoso, ajuda a internacionalizar sua marca. É uma decisão de negócios, profissional. E o departamento de futebol de base se firma como celeiro de talentos, ajuda a atrair novos garotos. Ele quer jogar na base do time que formou Neymar, Vinicius Junior...

3. Há casos em que é o jogador que quer ir cedo...

Jogador é um produto que tem vontade própria. Você não briga contra isso. Quando o cara tem oferta, fica mais corajoso, é como no mundo corporativo. E tem o imaginário do garoto. Hoje em dia ele quer ser o Thiago Silva, o Neymar, o craque do time de fora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Revelação do Paulistão, Martinelli é o 'bilhete premiado' do Ituano

Atacante de apenas 17 anos é cobiçado por grandes clubes no Brasil e no mundo

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2019 | 04h30

Gabriel Martinelli, atacante de 17 anos do Ituano, é definido como um “bilhete premiado”. Destaque da última Copa São Paulo, artilheiro do Ituano no Paulistão com seis gols, habilidoso, com boa visão de jogo, logo deve dar um salto mais alto. Seu empresário garante ter recebido 25 sondagens pelo atleta.

Fato concreto é que Gabriel é o orgulho do Ituano tanto pelo aspecto técnico quanto por abrir a perspectiva de dar tranquilidade financeira ao clube, que passa por dificuldades comuns aos pequenos do País. “Ter um jogador tão cortejado é ótimo para clube e o atleta. É isso que a gente busca, cada vez mais jogadores da base se destacando no profissional”, diz Juninho Paulista, gestor do Ituano.

Ele sabe que não conseguirá manter Martinelli e ainda não tem noção exata de quanto receberá ao negociá-lo – o Ituano detém 100% dos direitos. Mas há uma certeza: o dinheiro que virá vai dar tranquilidade financeira ao clube por bom tempo.

“Ainda somos um clube deficitário, principalmente por não ter um calendário adequado no segundo semestre. Temos receita só no primeiro. Aí, chega nos últimos três, quatro meses do ano, a gente fica deficitário e tem de encontrar soluções”, explica Juninho. “No caso do Martinelli, a gente espera que possa, além de cobrir esses furos (orçamentários), ter mais uma temporada de custos pagos.”

Mas Juninho pondera: “Martinelli é exceção”. E revela um desejo: o de um dia o Ituano poder segurar as crias por algum tempo antes de repassá-las.

Tudo o que sabemos sobre:
ItuanofutebolGabriel Martinelli

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.