Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Crise econômica e violência abrem 'clarões' nas arenas por todo o Brasil

O Itaquerão, a Arena Corinthians, não é o único dos novos estádios brasileiros que convivem com setores que recebem pouco público. Já se tornou comum, por exemplo, ver as partes centrais de Maracanã (Rio) e Mineirão (Belo Horizonte) praticamente às moscas na maioria dos jogos. A rigor, distribuição uniforme de torcedores por suas dependências apenas o Allianz Parque, do Palmeiras, tem conseguido com regularidade.

ALMIR LEITE, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 07h44

Para o consultor de gestão esportiva da BDO, Pedro Daniel, são dois os principais fatores que andam esvaziando os locais mais nobres das novas arenas, como camarotes e cadeiras especiais: a crise econômica vivida pelo País e a violência que insiste em acompanhar as partidas de futebol, sobretudo os clássicos.

"Quando a economia passa por momentos complicados, o gasto com entretenimento diminui", disse Daniel. "No caso dos camarotes, por exemplo, normalmente quem compra são as empresas. Com a economia numa fase desfavorável, esse investimento é deixado de lado".

Em relação ao medo da violência, ele alerta que causa impacto nos torcedores comuns de maior poder aquisitivo, justamente aqueles que quando vão aos estádios optam por ficar nos setores mais nobres. "São os que pagam valores mais altos pelos ingressos. Eles estão avaliando que a contrapartida recebida para ir ao estádio ainda não é a ideal". No Itaquerão, o Corinthians chega a cobrar R$ 450 por bilhete no setor Oeste.

TERCEIRO FATOR

Nos outros Estaduais, os preços têm sido mais camaradas, mas mesmo assim os bilhetes com valor mais alto têm pouca saída - e têm pouca oferta também, por uma questão estratégica. Tanto no Maracanã como no Mineirão os clarões na parte central são "forçados". Pedro Daniel explica: "Faz parte da estratégia dos clubes e dos administradores para atrair público para os outros setores. Por isso, muitas vezes os setores mais caros ficam fechados".

No Mineirão, o ingresso mais caro este ano para jogos do Estadual sai por R$ 130. Mas no clássico entre Cruzeiro e Atlético apenas 79 bilhetes para esse setor foram colocados à venda - e todos foram vendidos. O mesmo ocorreu no Maracanã com os bilhetes de R$ 80 para o clássico entre Botafogo e Fluminense pelo Campeonato Carioca. Foram adquiridos os 369 colocados à venda.

SUCESSO

O consultor considera que o Palmeiras tem conseguido obter mais sucesso na tarefa de preencher todos os setores do estádio - embora em alguns deles o preço dos ingressos também seja salgado.

E, no caso dos camarotes, vê na arena duas vantagens em comparação com o Itaquerão: a localização e o fato de os espaços serem menores - e, portanto, mais acessíveis. "A localização é um complicador para a arena do Corinthians. Como os camarotes são basicamente corporativos, é complicado para uma empresa levar convidados a Itaquera em um jogo às 10 da noite de uma quarta-feira. Isso também inibe (as vendas)", disse Daniel.

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Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

28 Março 2015 | 07h01

Com mais de 27 mil torcedores por jogo, o Corinthians tem a melhor média de público do Campeonato Paulista. Isso, no entanto, não significa que o Alvinegro tem conseguido lotar o Itaquerão. A nova arena tem capacidade para 48 mil lugares e praticamente todos os 21 mil lugares vagos ficam no prédio Oeste, onde os ingressos são vendidos por até R$ 450.

Concebido para gerar receitas milionárias, o setor mais caro do estádio ainda não está totalmente pronto. Não foram entregues, por exemplo, restaurantes, lanchonetes e lojas que fazem parte do projeto original.

O setor Oeste Vip Inferior não teve mais do que 25 torcedores que aceitaram pagar R$ 450 em nenhum jogo deste Paulista. O maior público do local foi de 22 pagantes, nas partidas contra Red Bull e Mogi Mirim. Contra o São Bernardo, apenas três torcedores compraram o ingresso por esse valor.

A diretoria, porém, não está disposta a diminuir o preço das entradas no prédio Oeste. “Aquele setor é desse jeito, eu não posso baratear. Não posso diminuir o valor do ingresso se os lugares mais baratos ainda não estão cheios. Quem sentou naquele setor foi por opção e não porque não tinha em outro lugar. Paga R$ 450 quem nunca foi no estádio e faz a compra avulsa”, disse ao Estado o presidente Roberto de Andrade.

O Itaquerão custou mais de R$ 1 bilhão. A partir de julho, o clube começará a pagar os empréstimos obtidos durante as obras. Serão prestações mensais de R$ 5 milhões ao BNDES. Em dezembro de 2016 começara a vencer o financiamento feito com a Caixa Econômica Federal. Serão mais R$ 5 milhões por mês. Hoje, toda a arrecadação de bilheteria do estádio vai para um fundo que será usado para pagar esses empréstimos. Por isso, o clube reluta em diminuir o preço do ingresso. A ideia é conseguir rendas milionárias, principalmente nas fases decisivas da Libertadores.

“Não dá para fazer futebol com valores muito baixos. Todos sabem que fizemos um estádio maravilhoso e temos de pagar a conta”, justifica Andrade.

A partir do próximo mês, o clube espera aumentar a arrecadação com o estádio com mudanças no programa de sócio-torcedor e a venda dos espaços mais nobres da arena, justamente no prédio Oeste.

“No dia 16 vamos fazer o relançamento do Fiel Torcedor. Será um produto novo, que estamos preparando há algum tempo. Vamos também liberar a locação das cadeiras cativas e camarotes”, disse Andrade.

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