Crise não atinge o São Caetano

Em dias difíceis para o futebol brasileiro, onde a maioria das grandes equipes está planejando cortes drástricos no orçamento e muitas demissões, um clube se destaca pelo seu momento de tranquilidade e sucesso. É o São Caetano, que depois de duas disputas de decisão no Campeonato Brasileiro, vai agora disputar a final da Taça Libertadores da América. Em vez das preocupações comuns aos grandes clubes, de pagamento de salários e cumprimento das obrigações financeiras, a maior preocupação do São Caetano esta semana, foi com a escolha do Pacaembu para a partida final, dia 31. Qual é o segredo do São Caetano, que não está preocupado com suas finanças. Segundo o presidente do clube, Nairo Ferreira de Souza, a formula é muito simples. "Se nós recebemos 10, gastamos 9." É assim, segundo ele, que o clube vem sendo administrado desde 1997, quando estava na terceira divisão. E de lá para cá o clube nunca passou dificuldades para pagar salários ou cumprir com suas obrigações. O dirigente também revelou outro segredo. "Não contamos com dinheiro que possa vir no futuro. Planejamos nossas contratações a partir do dinheiro que temos em caixa, vindo dos nossos patrocinadores." Com isso, Nairo exclui, inclusive, contar com dinheiro que venha de cota de televisão. "Vamos receber US$ 400 mil pela disputa da decisão da Libertadores. Alguns clubes poderiam pensar, por exemplo, em contratar o Romário para disputar uma eventual final do Mundial no Japão, mas vamos dar preferência em usar este dinheiro para melhorar as condições de trabalho de nossos jogadores." Nairo afirma que o São Caetano, apesar de sua administração controlada, não possui teto salarial para jogadores. "O que posso dizer é que a nossa média atual varia entre R$ 15 e R$ 20 mil mensais." É um valor, segundo ele, que não deverá ser reduzido, apesar das recentes propostas da Rede Globo de reduzir em 40% as cotas de direito de imagem dos clubes no Campeonato Brasileiro. "Vamos gastar a partir do dinheiro que tivermos em caixa." Tal esquema de administração, que se baseia no exemplo da maioria das empresas bem sucedidas, isso não significa que a diretoria do clube fique numa posição de isolamento com relação aos atletas. Segundo Nairo, "jogador de futebol é como uma criança", e precisa de uma atenção especial. O clube, de acordo com ele, procura também estar atento às necessidades extra-campo dos atletas e, na medida do possível, ajudar a solucionar problemas particulares dos jogadores. "Também tem algumas iniciativas que ajudam na aproximação, como por exemplo, comparecer aos treinos sempre que possível e viajar ao lado deles quando fazem jogos fora de São Caetano." O sistema de administração bem sucedida chegou inclusive a chamar a atenção de estudiosos. O engenheiro de produção Márvio Leoncini fez uma tese de doutorado na Escola Politécnica da USP, onde estudou o clube do ABC. "Realmente, o atual sistema administrativo do São Caetano pode ser considerado ideal para a atual realidade do futebol brasileiro. O engenheiro ressalta no entanto que isso acontece graças a uma série de condições favoráveis que o clube apresenta, como por exemplo, não estar sujeito às pressões políticas a que normalmente os grandes clubes brasileiros estão sujeitos. "Há uma cooperação total dentro do clube entre dirigentes, jogadores e torcidas. Não há brigas internas e os sócios não têm influência direta na gestão."

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