EITAN ABRAMOVICH/AFP
EITAN ABRAMOVICH/AFP

Crise no futebol argentino parece não ter hora para terminar

Torcedores não lembram de momento igual da equipe

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2016 | 06h00

Sem título há 23 anos, sem o melhor do mundo, sem um campeonato definido, sem time olímpico, sem treinador e sem um cartola que possa contratar um. O futebol que lidera o ranking da Fifa atravessa uma crise estrutural que não causaria inveja ao número 204 e último da lista, Tonga. Torcedores não lembram de um momento igual e especialistas na trajetória da seleção argentina buscam paralelos históricos. 

Em campo, nenhuma derrota foi tão humilhante como os 6 a 1 diante da Checoslováquia no Mundial de 1958, cujas consequências chegaram durante a década seguinte. "Houve então uma espiral de degradação esportiva que chegou no fundo em 1969, quando a seleção ficou fora de um Mundial nas eliminatórias", diz o comentarista Pablo Vignone, que associa aquele período a uma conjunção de jogo mesquinho, violência nos estádios e intervenções na Associação de Futebol Argentino (AFA). "Estamos vivendo uma fase tão obscura como aquela", avalia Vignone, coautor de "Así Jugamos", livro que descreve os 25 jogos mais importantes da Argentina em Mundiais.

O primeiro fator da crise é a cobrança por resultados que castiga essa geração, mas se arrasta desde a Copa América de 1993. Após três derrotas seguidas em finais, parte da torcida carimbou o grupo de perdedor. A primeira dessas quedas, para a Alemanha por 1 a 0 na final do Maracanã, completará 2 anos na quarta-feira. No ano passado e neste, o algoz foi o Chile nos pênaltis. Lionel Messi e seus companheiros são com frequência chamados na linguagem popular de "pechos fríos", ou jogadores sem garra, que somem nas decisões. O fato de ter deixado o título nas mãos dos chilenos, que superam os brasileiros em termos de rivalidade geopolítica com os argentinos, agravou a revolta. "Nós não jogamos com o Chile, vencemos a Alemanha", escreveu Diego Maradona na semana passada em uma mensagem por WhatsApp a seus companheiros do Mundial de 1986, homenageados nos 30 anos do título. 

Essas críticas chegam a um Messi que já carrega a permanente desconfiança sobre sua identificação nacional. Ele saiu aos 13 anos do país, rejeitou convite para jogar pela Espanha e construiu sua vida em Barcelona. Mantém intacto o sotaque argentino nas poucas vezes que fala. Essa moderação com as palavras, traço que o distingue de Maradona, é uma das razões para os argentinos terem levado a sério e reagido com milhões de apelos a seu plano de deixar a seleção, revelado após a derrota do dia 26. "É para o bem de todos, é para o meu também", disse então Messi.

Fora da Argentina, a frase foi interpretada só como o desabafo de um jogador de cabeça quente com o pênalti perdido. Mas quem conhece a discrição de Messi preocupou-se por outros sinais, como uma reclamação feita dois dias antes da final da Copa América. Por Twitter, ele chamou de um "desastre" a AFA em razão do atraso em um voo. Jornalistas que cobrem a seleção apostam que ele ficará um tempo afastado, mas estará no Mundial da Rússia em 2018. A discussão de fundo é sobre as outras razões para a frustração de Messi. A preparação para a Copa América irritou os jogadores, acostumados à estrutura de grandes clubes europeus. Os treinos coletivos eram contra qualquer time universitário que se conseguisse, os quartos de hotéis não eram isolados de turistas e nem sempre estavam prontos quando os atletas chegavam. As atrasos, em aviões e ônibus, eram a regra. A pressão por títulos afetou também o trabalho da imprensa, que só divulgou esses detalhes depois da final para não afetar o ambiente.

Essas falhas administrativas pareceriam inverossímeis em outra seleção do porte da argentina, mas são explicáveis pelo desgoverno na AFA. Comandada pelo poderoso chefão Julio Grondona entre 1979 e sua morte em 2014, a associação praticamente se desintegrou. Tornou-se alvo de uma disputa similar à vista em países que perdem seu ditador. Em dezembro do ano passado, uma eleição para a presidência, onde votavam os dirigentes dos clubes, foi anulada depois de terminar empatada em 38 a 38. Havia 75 eleitores.

Desde o escândalo, intervieram na associação o governo, a Justiça e a Fifa. O Judiciário investiga indícios de corrupção no programa Futebol Para Todos, com o qual o kirchnerismo estatizou as transmissões de futebol sob argumento de manter os principais jogos na TV aberta. Sem comando, os dirigentes dos clubes se encaminham para concretizar a ideia de uma liga de 30 equipes independente da AFA, mas não há data exata para o começo do torneio.

Na quinta-feira, pediu demissão o treinador Gerardo "Tata" Martino, que comandou a seleção no período pós-Grondona. A razão não foram os resultados. De 29 jogos, ganhou 19, empatou 7 e perdeu 3 - 73% de aproveitamento. Também não foi o atraso de sete meses de salário. Sem a autoridade da AFA para pressionar os clubes, ele só conseguiu juntar 8 dos 35 nomes que havia pedido para disputar a Olimpíada do Rio. 

Questionado sobre um sucessor para o técnico, o presidente da AFA, Luis Segura, disse na semana passada que para escolher o substituto é preciso definir quem seria seu patrão. "Aqui existe um problema e é quem escolhe o futuro técnico e quem pode escolhê-lo", admitiu Segura, cuja situação é um símbolo da acefalia da instituição. Herdeiro de Grondona, ele foi destituído pela Fifa e é investigado por corrupção pelo Judiciário. Já era tratado como ex-presidente, quando a própria Justiça pediu para ele "quebrar um galho" no cargo por mais alguns dias, até a Fifa nomear a comissão interventora que comandará o futebol do país até 30 de junho de 2017.

Hoje, a Argentina não tem como contratar um técnico nem que definisse um nome. A fragilidade institucional, que contribuiu para afugentar Messi e os títulos, afasta os favoritos do público Diego Simeone, do Atlético de Madri, Jorge Sampaoli, do Sevilla, e Marcelo Bielsa, que cancelou sua ida para a Lazio. Edgardo Bauza, do São Paulo, corre por fora nas pesquisas e, dos mencionados, foi o mais claro ao dizer que aceitaria a AFA.

Para o ex-jogador do Boca Juniors e da seleção Diego Latorre, que tornou-se um dos principais comentaristas do país, a tendência é que um interino assuma o cargo enquanto durar a intervenção da Fifa. "Nenhum técnico em são consciência, a menos que esteja muito necessitado, vai aceitar fazer parte deste vazio. Messi não está, a dívida de resultados é cada vez mais preocupante, há uma luta brutal de poder entre dirigentes e uma absoluta banalização do esporte. O horizonte é muito escuro", escreveu em sua última coluna no jornal La Nación.

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