Jorge Adorno/Reuters
Jorge Adorno/Reuters

Crise obriga sul-americanos a acelerar reformas estruturais no futebol

Com 25 anos de atraso, federações terão de profissionalizar para receber dinheiro

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 05h00

Uma recente auditoria no local usado pela seleção do Paraguai para treinar, em Assunção, chegou à constatação de que o prédio estava podre e que, numa das passarelas, se dez jogadores cruzassem juntos, ela desabaria. Decadentes e sucateadas, as federações sul-americanas terão de passar por um processo de profissionalização de sua administração para continuar recebendo dinheiro, inclusive da Conmebol. A meta é a de acabar com o caos político e financeiro e garantir, finalmente, investimentos no futebol. 

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Vivendo um jejum inédito de títulos mundiais, a América do Sul termina sua quarta Copa do Mundo, desta vez na Rússia, sem o troféu. Mas começa a desenhar um plano para recuperar parte de sua competitividade.

O Estado apurou que a entidade sul-americana, pela primeira vez, vai estabelecer um programa para ajudar as federações nacionais a passar por reformas. Com 25 anos de atraso em comparação ao que faz a Uefa, a Conmebol agora promete mudar a gestão dessas entidades nacionais.

Critérios serão adotados para que cada uma das entidades receba verbas da Conmebol e, portanto, repasses da Fifa. Nos próximos quatro anos, serão US$ 6 milhões para cada uma delas apenas de Zurique. A meta é de que, finalmente, o dinheiro vai para o desenvolvimento do futebol.   

Mas a entidade com sede em Assunção quer garantias de que o dinheiro seja usado de forma adequada. "Por anos o dinheiro foi destinado para outros objetivos, como o pagamento de honorários de advogados para defender dirigentes na Justiça", admitiu um executivo de mais alto escalão dentro da Conmebol. 

 

O caos, porém, é ainda importante.  Em apenas um ano, a federação boliviana de futebol teve cinco presidentes diferentes. No Brasil, a CBF conta com três pessoas no comando, ao mesmo tempo. Na Argentina, a Fifa foi obrigada a intervir e a federação foi dissolvida, antes de finalmente conseguir escolher um presidente. 

A crise de corrupção também levou Uruguai, Chile, Colômbia, Venezuela, Peru e Equador a ter de promover eleições em busca de novos dirigentes. 

Na confederação sul-americana, porém, a percepção é de que "décadas foram perdidas" e que a tarefa de reformar o futebol da região não será fácil. "Vai levar muito tempo", afirmou o executivo, na condição de anonimato.  

Os últimos dados da Conmebol revelam uma receita em 2016 de US$ 280 milhões. Na Uefa, a conta mostra uma realidade profundamente diferente. No mesmo ano, a receita da entidade europeia foi de US$ 5,2 bilhões, 18 vezes mais que os sul-americanos.

Mesmo na Ásia, a confederação regional acaba de anunciar um acordo de US$ 4 bilhões com investidores chineses para bancar seus torneios e o desenvolvimento do futebol.  

Reservas - Uma das apostas para alavancar os recursos da entidade era, em 2019, realizar a Copa América com seleções da América do Norte, Europa e Ásia. 

Mas Portugal e Espanha recusaram o convite. Na América do Norte, EUA e México aceitaram. Mas indicaram que apenas enviariam os times reservas para a terceira maior competição de futebol do mundo. A Conmebol se recusou a aceitar um time B americano ou mexicano e o acordo não conseguiu ser fechado. 

Restaram apenas o Japão e o Catar, país que promete trazer publicidade da próxima sede da Copa do Mundo para a Conmebol. Mas pouco vai somar em termos esportivos.  

 

 

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