Lucas Baptista
Lucas Baptista

Crise santista veio de grandes contratações, diz estudo

Consultoria aponta os altos custos com salários e contratações nos últimos anos como o principal problema financeiro do clube

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2015 | 17h00

A crise santista que barra os reforços, atrasa dos salários e compromete as contas cotidianas - até a semana passada, o clube  tinha um débito de 2 mil com uma floricultura - agravou-se nos últimos três anos porque o clube investiu em grandes contratações, pagando altos salários, sem que a receita subisse no mesmo ritmo. Esse é o diagnóstico da crise santista de acordo com um levantamento da consultoria BDO sobre as finanças dos clubes brasileiros. 

Em 2013, o clube teve uma queda de sua receita total de 4% em relação a 2012. Se desconsideradas as receitas com atletas, a queda foi de 25%, o que representa quase R$ 43 milhões. O exemplo desse declínio foi o recuo na bilheteria, que passou de R$ 17,4 milhões para R$ 10,2 milhões. Também no recorte 2012/2013, agora do outro lado da balança, o custo do departamento de futebol passou de R$ 134 milhões para R$ 167 milhões, uma variação de 24%. A grosso modo, o time arrecadou menos e gastou mais. "O principal problema do Santos foi o aumento dos custos do departamento de futebol nos últimos anos", avalia Pedro Daniel, gerente da divisão Esporte Total da consultoria. 

Custos do departamento de futebol significam basicamente grandes contratações com salários elevados. Em 2011, o início do agravamento da crise, o Santos contratou Elano por R$ 6,4 milhões, Montillo por R$ 26 milhões, Ibson por R$ 8,9 milhões e o volante Henrique por R$ 6,7 milhões. Outro exemplo foi a recontratação de André. Por 25% dos direitos econômicos, o Santos pagou 2 milhões de euros, em 2012. Em todos esses casos, o importante não é notar apenas o valor de cada contratação, mas também o salário pago para cada atleta: de R$ 300 a R$ 500 mil. 



A situação financeira do clube foi caracterizada como “muito grave” pela administração que conta ter herdado um rombo de R$ 120 milhões para este ano: déficit de R$ 60 milhões de 2014 somado ao adiantamento de receitas previstas para 2015 no mesmo valor. O novo diretor executivo, Dagoberto dos Santos, em entrevista coletiva, afirmou que pagar os salários em dia  era seu compromisso de honra. "Quanto maior o buraco, mais difícil é tirar sua medida. Temos uma dívida de R$ 120 milhões", avalia o presidente eleito Modesto Roma Junior. déficit de R$ 60 milhões de 2014 somado ao adiantamento de receitas previstas para 2015 no mesmo valor.

Se serve de alento para os santistas - e não deveria servir - todos os grandes clubes sofrem desse mal, de contratar e depois ver como vai pagar. Nos últimos cinco anos, os 23 principais clubes passaram de um custo do departamento de futebol de R$ 1,24 bilhão para R$ 2,45 bilhões, crescimento de 98%. 

O consultor e marketing esportivo Amir Somoggi chama a atenção para a situação peculiar do Santos, que ocupa um lugar diferenciado no imaginário dos torcedores pela geração de craques que formou no passado (Pelé, Coutinho, Pepe) e no presente (Robinho, Diego e Neymar). "O Santos foi do céu ao inferno. Montou um time supercampeão, sempre se caracterizou pela magia e futebol-arte, mas não conseguiu aumentar suas receitas. A atuação da área de marketing foi muito fraca ao não conseguir um patrocinador", avalia. 

A falta de um patrocinador é o principal argumento da gestão anterior para se defender das críticas de má administração. Membros do Comitê de Gestão na gestão de Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro e Odílio Rodrigues afirmam que o ponto de inflexão foi a ausência do time na Libertadores em 2013. Isso fez com que o Santos fosse o primeiro clube a sentir a falta de um patrocínio máster. A perda da receita de R$ 18 milhões por ano teria produzido o início da crise e hoje prejudica também outros clubes, como São Paulo e Palmeiras. Antes de assinar com a empresa chinesa de tecnologia Huawei em outubro do ano passado, o Santos não contava com um patrocinador máster em sua camisa desde o fim do vínculo com o banco BMG, no início de 2013. Além da Huawei, o Santos conta com outros dois patrocinadores em sua camisa. A escola de idiomas CNA estampa seu nome no ombro, enquanto a fabricante de tubos e conexões Corr Plastik ocupa as mangas do uniforme.

Odílio Rodrigues, presidente que encerrou sua gestão no início de janeiro, afirma que conviver com problemas financeiros é histórico no Santos. "As dívidas são históricas em todos os clubes de futebol. Nós também assumimos com dívidas. É a equação do futebol que está errada", argumenta. 

Para tentar sair da crise, o Santos pretende antecipar 40% da cota do patrocínio da empresa chinesa de tecnologia Huawei. Os chineses pagarão R$ 18 milhões, e o clube negocia o adiantamento de R$ 7,2 milhões. Outra saída é antecipar as cotas de tevê de 2016 - as de 2015 já foram antecipadas. "É um círculo vicioso", afirma Pedro Daniel.

Tudo o que sabemos sobre:
FutebolBrasileirãoSantos FC

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.