Sergio Neves/AE - 16/11/2011
Sergio Neves/AE - 16/11/2011

Cristóvão, o fiel escudeiro

Auxiliar assumiu equipe por conta do AVC de Ricardo Gomes e agora luta pelo título

Tiago Rogero, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2011 | 19h55

RIO - Sempre foi Cris. Nas últimas semanas, virou “Estrela’’ para dona Valdelice. “Ligo para ele e digo: ‘Fala, Estrela!’ É meu neguinho de luxo’’, orgulha-se a mãe. De auxiliar técnico do Vasco, Cristóvão Borges, de 52 anos, passou a comandante da equipe depois do Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido por Ricardo Gomes. Contornou o momento de tristeza, dele e do elenco, chegou à semifinal da Copa Sul-Americana e, hoje, contra o Flamengo, pode conquistar o Campeonato Brasileiro.

Filho do motorista Alfredo e da lavadeira Valdelice, Cristóvão nasceu em Salvador. Cresceu jogando bola na praia, no bairro de Amaralina. “Os amigos dele vinham me pedir para deixar ele jogar’’, contou a mãe, que mora na capital baiana, por telefone. “Quando estou com saudade, ele manda me buscar’’, disse. Quando vai à Bahia, pede à mãe o prato favorito: feijão de leite, vatapá e moqueca de peixe vermelho.

O menino trocou a areia pelos gramados aos 15 anos. Levado por um amigo da praia para fazer teste no Bahia, marcou cinco gols logo no primeiro treino, jogando no ataque, como lembra o amigo Roberto Passos, de 53 anos. “Estava indo para o juvenil e o pessoal falou: ‘Olha, chegou um centroavante no dente de leite que é o terror’’’, contou o ex-meia, hoje supervisor de futebol do clube baiano. 

Cristóvão, segundo ele, era “multifuncional’’, jogava em várias posições. A característica marcou a carreira do atleta, que chegou a atuar mais avançado ou recuado, mas ficou conhecido como o volante de “toque refinado’’. 

Aos 17 anos, Cristóvão perdeu o pai. Pouco depois, foi promovido ao profissional. Caçula de quatro irmãos (dois homens e duas mulheres), virou arrimo de família. E até hoje é, conta dona Valdelice. “Ele é o caçula, mas parece o mais velho’’, disse a mãe. Há 10 anos, o irmão faleceu.

O Fluminense surgiu na vida dele em 1979. Aos 20 anos, convocado para a seleção brasileira de juniores, Cristóvão venceu o Pan de Porto Rico. O médico da delegação, Arnaldo Santiago, do Flu, indicou o atleta à diretoria do clube. Na estreia, marcou um dos gols na vitória sobre o Flamengo, por 3 a 0. 

Ganhou o campeonato carioca de 1980 e torneio de Toulon, na França, pela seleção de novos. Foi nas Laranjeiras que conheceu Ricardo Gomes. Em 1981, sofreu uma contusão que o deixou seis meses parado. Quando voltou, não mais foi aproveitado e começou a ser emprestado pelo Flu. 

A partir daí, foram altos e baixos. Passou por Operário-MS, Atlético-PR, Corinthians, Atlético-MG e Portuguesa. Foi no Grêmio, em 1987 e 1988, que voltou a jogar seu melhor futebol. Venceu dois estaduais e chegou à seleção principal. Em 1989, foi campeão da Copa América. “Naquela época, ele já tinha esse jeito de líder, de orientar os atletas, principalmente os mais jovens’’, disse o ex-volante João Antônio, coordenador da base gremista, reserva de Cristóvão na equipe que ficou conhecida como “Grêmio Show’’.

A primeira experiência como auxiliar técnico foi em 1998, com Alfredo Sampaio, no Bangu. Retomou contato com Gomes durante um curso para técnicos promovido por Carlos Alberto Parreira e Zagallo. Em 1999, no Vitória, começaram a parceria, que seguiu na seleção pré-olímpica. Tiveram um hiato quando Gomes voltou à França para treinar o Bordeaux e, este ano, no Vasco, voltaram a trabalhar juntos.

Dona Valdelice disse estar contando os minutos para o fim do campeonato. “Vou ligar pra ele e dizer: ‘Agora, vê se você viaja e descansa um pouco’’’. A mãe está preocupada com o peso do filho. “Ele nunca foi gordo, mas emagreceu um pouco. Digo pra ele: ‘Tá metido, só quer ficar na frente da telinha com essa barriga chapada’! Ele acha graça.’’

Se o Vasco vencer o Flamengo e o Corinthians perder para o Palmeiras, Cris voltará para Salvador com seu primeiro título como técnico.

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