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Crônica: O VAR anulou o gol de mão de Maradona

O final da história do craque poderia ser diferente sem a 'mão de Deus'

Daniel Fernandes, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 16h22

Gol anulado!!!!

Gol anulado no começo do segundo tempo, berra o frustrado narrador argentino.

Após consultar o VAR, durante dez minutos, o árbitro Ali Bin Nasser, da Tunísia, anula o que seria o primeiro gol argentino contra a Inglaterra.

Maradona recebe cartão amarelo por tentar enganar a arbitragem, o público, os ingleses e o mundo. Mas Maradona sabe, não era a mão dele. Era de Deus!

Irritado com tamanho sacrilégio, com um terremoto na cabeça, se desespera com a marcação dos ingleses de branco.

Jogava bem, passa a jogar mal. Erra seguidos passes. Desarmado seguidamente, caçado em campo, bate-boca com Stevens e com o temido Terry Butcher, que faz juz ao sobrenome saxão.

Capítula com o gol de Lineker, que seria o artilheiro da Copa do México, marcado apenas nove minutos do final do jogo. Faltando dois minutos, Maradona recupera a bola no meio de campo, dribla um, dribla outro, avança, avança, dribla o terceiro inglês.

No derradeiro lance, adianta centímetros a bola antes do arremate final, antes do petardo que empataria o jogo e levaria a partida para a prorrogação, quem sabe pênaltis e quem sabe mais o que.

Mas Maradona não desiste. Se atira na bola com desespero, o ato final de um drama futebolístico. Mas Shilton, o goleiro inglês, é mais rápido. Agarra a bola e, na divida, é atingido pelas duas chuteiras pretas do craque argentino que se atira para a morte ou a glória. Shilton se contorce de dor, Maradona é cercado por enfurecidos ingleses. Bin Nasser reaparece com o cartão vermelho puxado do bolso.

Maradona está expulso!

Escoltado por Lineker para fora do gramado, o camisa 10 chora copiosamente.

A Argentina está eliminada.

Maradona, então, regressa ao Napoli desacreditado, esquecido até. Ninguém mais acredita que o meio-campo vai vingar em mundiais.

Não foi em 1978, fracassou em 1982 e 1986. Estará em 1990?

Ganhar títulos nacionais, com o pequeno time do sul italiano, é uma coisa. Algo difícil, mas não impossível. Mas ganhar o Mundial com a Argentina, uma seleção sem estrelas. É outra coisa, bem diferente. Batista, Valdano? Ótimos jogadores, mas nada espetaculares.

Maradona sozinho não vai ganhar nenhum Mundial.

E não ganha mesmo.

Depois de quatro anos mais no Napoli, sem o mesmo sucesso de anos anteriores, Maradona regressa para a Argentina. Volta para o Boca Juniors no início dos anos 1990. Apupado por uma torcida que sempre o idolatrou, Maradona conquista três campeonatos argentinos seguidos.

Vive uma fase de muita tranquilidade na vida pessoal.

Refaz o casamento com Claudia Villafañe, que conheceu em 1977. Mulher que permaneceu ao seu lado durante os altos e baixos da carreira. Durante os altos e baixos da vida pessoal.

Maradona não usa drogas desde 1985. A serenidade da vida pós 1986 o ajudou na maior partida da sua vida. Estamos em 1995. Dez anos depois, tudo o que ele pretende é ganhar a Copa Libertadores para encerrar a carreira com mais um título para o time do coração.

Na final, contra o River Plate, a primeira entre os gigantes da Argentina, Maradona é protagonista. Faz dois gols no Monumental de Nunez, a partida final. O título está ganho. A Copa é do Boca. A taça, o ápice da carreira de Maradona desde os tempos de Napoli.

Aposentado, decide mudar-se com a família para o interior do Uruguai.

Acorda, todos os dias, por volta das 5h. Corre cinco quilômetros, faça chuva, faça sol, faça frio ou calor.

Toma café da manhã e realiza mais exercícios.

Ano que vem, 2040, vai completar 80 anos. Aparenta menos idade. Dona Angelina não deixa de notar a serenidade e felicidade do ex-jogador.

Ele é sempre assim, ou quase sempre.

Vizinha da pequena fazenda onde Maradona viveu os últimos cinco anos, não se esquece daquele domingo à tarde em que o vizinho se divertia com uma bola de capotão surrada pelo tempo. Fazia embaixadinhas, dava dribles em zagueiros imaginários e comemorava com uma torcida de mentira.

Foi a única vez que viu o homem triste

Dois dias depois, encontra Maradona na vendinha do senhor senhor Galeano. Maradona passa, acena com a mão direita e começa a pedalar sua bicicleta com uma cuia de chimarrão.

Vai sereno, pedalando sem atropelos. Sabe que o futuro está conquistado e os ânimos acalmados.

Sabe que driblou a si mesmo.

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