Cruzamento de acusações na 'novela' do futebol argentino não tem fim

Até a presidente Cristina Kirchner palpita sobre a saída de Maradona do comando da seleção

JOAN FAUS, Efe

03 de agosto de 2010 | 16h30

BUENOS AIRES - A saída de Diego Armando Maradona do comando técnico da Argentina desencadeou em uma interminável novela com troca de acusações entre seus partidários e detratores, que um dia o censuram e logo depois não descartam seu retorno à seleção.

Maradona protagonizou o primeiro capítulo da novela na terça-feira da semana passada, um dia após ser demitido, quando denunciou que o presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA), Julio Grondona, mentiu para ele, e o secretário técnico das seleções argentinas, Carlos Bilardo, o traiu.

Tanto Grondona quanto Bilardo se apressaram em responder a 'Dieguito'. O presidente da AFA disse estar "chateado" e negou ter enganado Maradona, enquanto Bilardo questionou os "bichinhos que rodeiam" aquele que foi seu principal jogador na conquista da Copa do Mundo de 1986.

Indignado, o secretário das seleções garantiu na terça-feira passada que jamais traiu Maradona, mas, ao contrário, sempre deu "a vida por ele". Depois de alguns dias, no entanto, mudou de opinião e baixou o tom. "Se Diego quiser conversar, não sei o que pode acontecer. Tudo é uma questão de conversa", afirmou Bilardo no domingo, deixando uma porta aberta para o retorno de Maradona como técnico da seleção.

E o entorno do maior ídolo do futebol argentino não demorou a reagir. "Até que se nomeie um novo treinador, Diego tem chances de seguir na seleção", disseram na segunda-feira à imprensa local pessoas próximas a Maradona.

No entanto, a trama parece ter cansado o todo-poderoso Grondona, presidente da AFA desde 1979. "Todos podem voltar, Jesus Cristo pode voltar. Já não sei o que pode acontecer, não tenho ideia de nada".

Em meio a tudo isso, perdidos na confusão, estão os jogadores e Sergio Batista, técnico das equipes de base da Argentina e que foi escolhido para treinar o time principal interinamente até o fim do ano.

Batista, obviamente, não quer deixar passar a oportunidade de ouro. "Sou um candidato a mais e tentarei fazer o melhor possível nestes quatro meses. Não vou exigir nada, mas tenho expectativas de ser confirmado no cargo", comentou.

Poucos jogadores da seleção opinaram publicamente sobre a demissão de Maradona. Um dos que não se esquivaram foi o capitão da equipe na Copa da África do Sul, o volante Javier Mascherano.

"É mentira que nós não demos respaldo a Maradona. Não preciso de uma câmera para fazer isso, já o fiz no campo, que é onde devo respaldá-lo", comentou nesta segunda-feira o meio-campista do Liverpool a rádios argentinas. "Pensar que um jogador da seleção conspira contra um técnico é uma loucura. Se fico sabendo de algo assim, dou as costas a essa pessoa", acrescentou.

E a novela, como é habitual na Argentina, não demorou a chegar à área política, até o ponto em que a presidente Cristina Fernández de Kirchner opinou sobre o assunto minutos depois da demissão de 'Dieguito'.

"Aguente, Maradona", comentou a governante, que disse se sentir muito aflito pelo confronto do astro com Grondona. "Fiquei com pena de Diego, acho que ele fez um papel muito digno na seleção. Isso não é justo nem com Maradona nem com ninguém", acrescentou.

O cruzamento de acusações parece ter tido uma trégua, seguramente temporária, em uma interminável novela argentina.

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