Gustavo Aleixo/Cruzeiro
Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Número de clubes-empresa pode crescer no futebol brasileiro nos próximos meses

Cruzeiro vendeu 90% de suas ações ao ex-atacante Ronaldo neste sábado em uma negociação de R$ 400 milhões; times estudam adotar formato de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) para atrair investidores

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

A compra de 90% das ações do Cruzeiro pelo ex-jogador Ronaldo em uma transação de R$400 milhões chacoalhou o futebol brasileiro neste sábado. Afundado em dívidas de cerca de R$ 1 bilhão, o clube mineiro virou Sociedade Anônima do Futebol (SAF), após a aprovação da Lei do Clube-Empresa neste ano, e havia contratado a XP Investimentos para atrair investidores. O Cruzeiro pode não ser o único time a passar por essa transformação. Pelo menos, cinco equipes estão tratando do tema: Botafogo, Coritiba, Athletico-PR, América-MG e Chapecoense.

A maioria dos clubes brasileiros hoje são associações sem fins lucrativos, e a lei não obriga as equipes a virarem empresa. Adotando a SAF, o clube passa os ativos para a empresa, que substitui o time em campeonatos e assume os contratos de jogadores, além das dívidas. Há uma separação do futebol em relação ao clube social.

O modelo possibilita diferentes formatos, e vários tópicos precisam ser debatidos internamente pelos clubes antes de a mudança ser efetuada, como a porcentagem a ser negociada na transação. No formato adotado pelo Cruzeiro, 90% das ações poderiam ser comercializadas. 

"Não tenho dúvida que começamos hoje a transformar a história do futebol nacional. O Cruzeiro é só o primeiro. Muitas outras negociações semelhantes envolvendo os clubes brasileiros estão por vir. O Botafogo será o próximo, também assessorado pelo nosso Investment Banking", disse o CEO da XP, José Berenguer, neste sábado, em seu perfil na rede social Linkedin.

O Botafogo, também com muitas dívidas, foi outro que contratou a XP Investimentos no objetivo de consolidar o projeto de transformação em SAF e buscar um comprador. O clube entende que o modelo é fundamental para se organizar e readequar financeiramente. 

"Nós entendemos que, apesar do enorme desafio financeiro, é possível reestruturar a dívida e, ao mesmo tempo, captar novos investimentos. Temos ativos valiosos, que vão desde os atletas até a tradição, o peso da marca e o tamanho da torcida. Dá para preservar o passado sem se esquecer de construir o futuro. E para isso acontecer, temos a obrigação de entregar uma gestão exemplar e transparente, que se perpetue na cultura de honrar compromissos", analisou o CEO do clube, Jorge Braga, à época do acordo entre as partes.

Outros times do futebol brasileiro podem passar por transformações nos próximos meses. O América-MG caminha para se transformar em SAF e negocia um acordo com um empresário estrangeiro para comprar ações do clube. No mês passado, associados do Athletico-PR aprovaram a mudança para o modelo SAF em uma assembleia online. Já nesta semana, os sócios do Coritiba votarão para aprovação ou reprovação da possibilidade de o clube virar empresa. A Chapecoense discute internamente a possibilidade de adotar o formato de clube-empresa e pode avançar no processo ainda este mês.

O modelo de clube-empresa é adotado pela grande maioria dos clubes das cinco principais ligas de futebol da Europa, apontou um estudo elaborado pela consultoria Ernst & Young divulgado em janeiro. O documento mostrou que 96% das 202 equipes da primeira e segunda divisões das ligas da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália são entidades privadas.

Série A tem Cuiabá e Red Bull Bragantino como clubes-empresa

Cuiabá e Red Bull Bragantino foram os dois únicos times com modelo clube-empresa que disputaram o Brasileirão 2021. Em 2009, a agremiação do Mato Grosso foi comprada por uma fabricante de recapadora de pneus, subiu da terceira para a primeira divisão e ainda conquistou a Copa Verde, em duas ocasiões. Neste mês, adotou o modelo SAF para obter mais benefícios.

O Red Bull Bragantino surgiu em 2019. Antes disso, a Red Bull iniciou sua trajetória no futebol brasileiro em 2007, com o nome de Red Bull Brasil. No espaço de oito anos, resultados de grande destaque demoraram a aparecer. Então, em 2019, a Red Bull foi atrás de um clube da Série B e fechou parceria com o Bragantino em um acordo em torno de R$ 45 milhões. 

Logo no primeiro ano, o Bragantino conseguiu o acesso à Série A. Já em janeiro de 2020, passou a se chamar Red Bull Bragantino, viu seu escudo mudar e ganhou a cor vermelha no uniforme. Esse ano, investiu mais de R$ 100 milhões em reforços e foi vice da Copa Sul-Americana. O clube divulgou que terá um novo centro de treinamento, com previsão de entrega para 2023, e quer transformar o estádio Nabib Abi Chedid em uma arena para cerca de 20 mil pessoas.

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