Rodrigo Sanches / Cruzeiro
Rodrigo Sanches / Cruzeiro

Cruzeiro vive 'Dia D' para aprovação da venda da SAF para Ronaldo por R$ 400 milhões; entenda

Conselheiros do clube celeste se reúnem com o ex-jogador nesta segunda-feira, às 18h30, para debater pontos divergentes e selar acordo com o pentacampeão. Transferência de CTs é principal ponto da negociação

Rodrigo Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 10h50

A noite desta segunda-feira, dia 4, pode marcar o início de um novo capítulo na história do Cruzeiro. O Conselho Deliberativo do clube votará, a partir das 18h30, as exigências feitas por Ronaldo Fenômeno para a formalização da compra de 90% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) celeste, com a promessa de investir até R$ 400 milhões. Nos bastidores, a expectativa é de que a pauta seja aprovada e o ex-jogador passe a tocar o futebol da agremiação. A reunião será aberta e terá transmissão no canal oficial do clube no YouTube. 

Ronaldo surgiu como o principal interessado em adquirir o controle da SAF do Cruzeiro após o clube firmar uma parceria com a XP Investimentos para encontrar um potencial investidor. Ex-jogador do time mineiro, a sinergia com a torcida, preocupada com o futuro de uma equipe que há três anos amarga a Série B, foi imediata. No entanto, Ronaldo encontrou graves problemas orçamentários e pediu garantias para firmar o negócio. A principal delas foi a transferência das Tocas 1 e 2 — Centros de Treinamento do Cruzeiro — para a SAF. 

A possibilidade de perder o controle sobre os CTs é ponto de divergência entre os conselheiros. Com o Cruzeiro vivendo a pior crise institucional de sua história e com uma dívida que chega a quase R$ 1 bilhão, os terrenos são tidos pela diretoria como dois dos principais patrimônios do clube. Ronaldo já afirmou publicamente que não pretende utilizar o espaço para a construção de empreendimentos e que os elencos profissionais e juniores seguirão treinando no local. 

"Não é do nosso interesse usar qualquer uma das Tocas como investimento imobiliário. Eu me comprometo que não vou vender e, se houver possibilidade de venda, a gente participaria (sic) a Associação nesse negócio. Mas essa não é a intenção. Usamos as Tocas para o futebol e a parte administrativa", disse Ronaldo. 

A inclusão das Tocas na venda da SAF para Ronaldo obriga automaticamente o ex-jogador a lidar com as dívidas tributárias do clube, ponto não citado na primeira versão do documento final do negócio. A ideia de Ronaldo é evitar que o Cruzeiro, enquanto associação, perca os CTs caso não consiga honrar o compromisso com quem tem a receber do clube.  

"Se a gente não tem o nosso CT, onde vamos colocar os nossos jogadores para treinar? Esse processo demoraria muito mais", disse Ronaldo. "Assim, a gente se responsabiliza pela dívida tributária, honra o pagamento e garante o nosso local de trabalho, que vai estar com a SAF", concluiu. Ronaldo assumirua ainda uma dívida de impostos de R$ 200 milhões.

 

Ronaldo ainda propõe que o pagamento de dívidas cíveis e trabalhistas com credores deva ser feito através de uma recuperação judicial ou extrajudicial. Neste caso, a associação faria a proposta de pagamento e a SAF cederia parte de suas receitas para quitar essas dívidas. A título de comparação, o Botafogo, outro clube a concretizar a venda de sua SAF, optou pelo Regime Centralizado de Execuções (REC), mecanismo no qual o clube destina 20% de sua receita para o pagamento de dívidas em um prazo de até dez anos. 

Para Juliana Biolchi, Diretora Geral da Biolchi Empresarial. Especializada em revitalização de empresas, negociações complexas e recuperação extrajudicial, as exigências de Ronaldo fazem sentido e tem como objetivo de garantir uma segurança jurídica para todo o empreendimento que o ex-jogador pretende construir.

"O raciocínio dele está correto, é preciso que haja essa segurança jurídica para que a SAF esteja protegida. Do contrário, a SAF corre riscos, inclusive de sucessão nessas dívidas e ônus muito mais ampliados do que aqueles que foram pensados para o caso. Então, o que o Ronaldo está pedindo é que se use a chave adequada para abertura desse regime especial", disse.

"Ninguém vai empreender sem ter condições de mensurar o risco. Se ele conseguir fazer essa operação de maneira que torne a SAF um empreendimento saudável, consequentemente isso vai ser bom para o Cruzeiro também. Nesse caso, o interesse é comum: a profissionalização no futebol e sua transformação em um negócio sustentável. Se esse ponto “ótimo” for atingido, ambas as partes saem ganhando e me parece que o movimento feito pelo Ronaldo é justamente em busca da viabilidade. Acredito que o Cruzeiro tem, sim, que olhar com bastante seriedade para essas exigências e entender que elas fazem todo o sentido nesse cenário de endividamento em que a instituição se encontra", conclui.

Ronaldo assinou o contrato de intenção de compra da SAF do Cruzeiro em dezembro de 2021, com a promessa de investir até R$ 400 milhões — R$ 50 milhões no ato da compra, e outros R$ 350 ao logo de 60 meses a partir de receitas geradas pela própria SAF. Desde então, a equipe do empresário se debruça sobre os documentos para entender o real buraco financeiro no qual o clube celeste está metido. Esta não é a primeira vez que o pentacampeão se aventura em negócios do esporte, sendo também acionista majoritário do Valladolid, da Espanha.

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