Divulgação|Retrô FC
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CT de R$ 35 milhões, torcida 'contratada' e salário quinzenal: conheça o novo rico do Nordeste

Retrô, time de Pernambuco, disputa pela primeira vez a elite Estadual e sonha em chegar à Série B do Brasileiro em quatro anos

Ciro Campos , O Estado de S. Paulo

Atualizado

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Em um complexo de 15 hectares cercado de Mata Atlântica em Camaragibe, perto do Recife, um novo empreendimento do futebol brasileiro se inspira no passado para traçar um plano ambicioso. Um clube-empresa chamado Retrô promete investir pesado para chegar ao menos no Campeonato Brasileiro da Série B dentro de quatro anos, com direito a construir estádio, revelar jogadores e até contratar torcedores se for preciso.

O mentor do projeto é o presidente do clube, Laércio Guerra. Empresário e diretor-geral do Centro Universitário Brasileiro (Unibra), fundado em 2008, ele teve a ideia de criar o Retrô em 2016. Em um terreno espaçoso onde construiria um condomínio residencial, preferiu investir R$ 35 milhões para erguer um complexo esportivo voltado inicialmente ao trabalho social da sua instituição de ensino. 

Em 2019, a ideia de virar um time de futebol profissional vingou. No ano passado, o Retrô foi vice-campeão da segunda divisão regional e conseguiu o acesso à elite de Pernambuco. Neste ano, precisa terminar nas primeiras posições para obter a sonhada vaga na Série D do Brasileiro de 2021, de modo a iniciar a luta por promoção no cenário nacional. 

O empresário escolheu batizar o clube com algum nome capaz de resumir o conceito do seu projeto. "A ideia é tentar retroagir aos conceitos do futebol antigo, dentro do que é moderno na preparação atual. Só joga aqui quem sabe cuidar da bola e tenha técnica, seja zagueiro ou goleiro", explicou ao Estado. A grande inspiração é a seleção brasileira de 1982.  

Guerra tinha como experiência no futebol ter sido dirigente do Sport, mas ao criar o próprio clube preferiu apostar em uma estrutura que rompesse com o modelo tradicional do futebol. Os membros principais do organograma do Retrô vieram de outras áreas: o diretor de futebol trabalhava com logística e o supervisor tinha experiência na área comercial, por exemplo.

"Nós pegamos neófitos. Se fosse alguém que já estava no futebol, teria os vícios do esporte", explicou. Para contratar jogadores ou técnico, há um processo seletivo de várias etapas, inclusive com entrevista. "Quando a gente contrata treinador, nós é que dizemos o que ele precisa aplicar no dia a dia. É o técnico que tem de se adaptar ao clube e não o inverso", afirmou.

O Retrô disputou neste ano pela primeira vez a Copinha e conta com uma ampla estrutura para a base. Os mais novos jogam futsal pelo sub-7. Todas as categorias buscam jogar no mesmo estilo, com toque de bola e sem chutões. Em 2019, em 13 competições estaduais disputadas para as categorias de inferiores, o clube foi finalista em 11. Atualmente são 532 garotos na base.

Todos utilizam o mesmo CT que os profissionais. A estrutura está em reforma para ter com 11 campos oficiais. O local negocia com a CBF para receber os treinos da seleção brasileira no próximo mês durante a disputa do jogo com a Bolívia, pelas Eliminatórias da Copa. O elenco profissional tem folha salarial de R$ 400 mil, a terceira maior de Pernambuco. Apenas Sport e Náutico gastam mais. O compromisso do clube é pagar os jogadores a cada 15 dias, sem atrasar.

ESTAGIÁRIOS

O empresário utiliza a estrutura do Retrô inclusive como extensão dos alunos da Unibra. Estudantes de fisioterapia, educação física, odontologia e biomedicina fazem estágio no CT e atuam no atendimento aos garotos. Os alunos têm ainda o papel de atuar como torcedores em jogos do time, ao ganharem ingressos, transporte e camisas para os jogos do time na Arena Pernambuco.

"Temos uma média de 3,5 mil torcedores a cada jogo em um universo de 30 mil alunos da universidade. Nos cinco primeiro anos vamos precisar ainda 'comprar' a torcida. A partir disso, acredito que o time pode gerar uma torcida espontânea. É um processo", disse. O clube começa em março a construir um estádio em Camaragibe para 12 mil pessoas. A obra deve ficar pronta em um ano e custar R$ 20 milhões.

Guerra afirmou que no momento os pesados aportes ainda não dão retorno. "É um investimento que ainda não se paga, mas tem algumas vantagens como o trabalho social e a universidade poder desenvolver trabalhos científicos e práticos", comentou. Neste ano o time começou bem o Estadual e após quatro jogos é o quinto colocado.

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Retrô prega filosofia do 'tiki-taka' e sonha com time formado na base

Equipe tem estilo de jogo de troca de passes e manutenção da posse de bola desde as categorias de base mais jovens

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 11h40

No Retrô, de Pernambuco, os jogadores têm a explícita recomendação para não dar lançamentos longos ou se livrar da bola, assim como é no Barcelona e nos times treinados no Brasil pelo técnico Fernando Diniz. O clube nordestino defende a proposta de troca de passes e movimentação desde a saída de jogo com o goleiro. Inclusive, esse estilo é trabalhado já nas categorias de base mais jovens, com o intuito de formar no futuro um time profissional com a presença de 70% de revelações caseiras.

"A gente tem a cobrança de não dar 'chutão'. A gente se cobra por isso. Se dar 'chutão', o treinador até apita para interromper o treino. O futebol moderno é isso, de toque de bola. Estamos no caminho certo", disse o zagueiro e lateral Luiz, de 19 anos. A equipe precisa treinar também para fugir da marcação adversária na saída de bola, pois a estratégia de jogo já se tornou conhecida.

O Retrô tem como principal aposta para os próximos anos o atual elenco sub-17. Trata-se da geração de garotos que está há mais tempo na base e assimilou melhor os conceitos de toque de bola e da busca pelo jogo bonito. O elenco profissional atual tem uma mescla entre revelações da base e jogadores com passagens pelos grandes de Pernambuco. Mas o sonho do clube é formar o elenco todo dentro de casa.

O próprio defensor Luiz veio do Sport no ano passado após seis temporadas no clube rubro-negro. "O Retrô tem uma estrutura grande e dá oportunidade a outros atletas. Nosso time busca sempre jogar com a bola no pé. É importante trabalhar isso desde a base, para o garoto aprender melhor", explicou o jogador.

Quem cuida de revelar os garotos garante que a preocupação não é com títulos na base, mas sim em lapidar os talentos. O técnico do time sub-20, Thiago Souza, contou que até mesmo no processo seletivo de garotos, só é selecionado quem demonstra capacidade de se adequar ao estilo do Retrô. "Procuramos quem tenha a melhor relação com a bola e quem entenda o nosso projeto", afirmou o treinador.

A base do Retrô negociou recentemente nove jogadores com outras equipes. O clube contratou uma rede de observadores técnicos em outras cidades do Nordeste para buscar garotos e encaminhar as indicações à diretoria.

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