Ivan Storti/Santos
Ivan Storti/Santos

Cuca vibra com Santos na final, mas lembra medo da morte: 'Fico pensando se é certo estar jogando'

Técnico relembra internação após ser infectado pelo novo coronavírus e das dificuldades que passou desde que foi contratado pelo clube, em agosto, até chegar à decisão da Libertadores

Entrevista com

Cuca

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2021 | 10h00

Quando recebeu a proposta do então presidente José Carlos Peres para substituir o técnico Jesualdo Ferreira no Santos, Cuca sabia que encontraria um grupo reduzido, problemas de atrasos salariais, proibição da Fifa para contratar e dois jogadores - o goleiro Everson e o atacante Eduardo Sasha - brigando por rescisão na Justiça. Por outro lado, o técnico vislumbrou a possibilidade de o time chegar longe na Copa Libertadores da América.

Sob o comando de Jesualdo Ferreira, antes da paralisação do futebol em decorrência da pandemia do coronavírus, o Santos havia vencido os dois primeiros jogos do torneio continental. Era a motivação que Cuca precisava para aceitar assumir o time alvinegro pela terceira vez e incentivar o elenco. Logo em sua primeira conversa com o grupo, após ser contratado, no dia 7 de agosto, o técnico reforçou que conquistar a Libertadores era possível. A "esperança" pode se tornar realidade no dia 30, quando o Santos enfrentará o Palmeiras na decisão, em jogo único no Maracanã.

O maior receio de Cuca era a chance de Everson e Eduardo Sasha conseguirem a rescisão de contrato na Justiça, o que poderia abrir precedente para outros jogadores fazerem o mesmo. O treinador, então, se intrometeu: ligou para o goleiro e para o atacante e também conversou com o então diretor de futebol do Atlético-MG, Alexandre Mattos. Semanas depois, Everson e Sasha fecharam com o clube mineiro, em negociações que renderam ao Santos cerca de R$ 15 milhões, valor usado para quitar algumas pendências com o elenco. Num clube em crise política e econômica, Cuca fez o papel de "presidente", como definiu o principal destaque da equipe, Marinho. O treinador minimiza o "apelido", mas reconhece que foi um momento-chave para o Santos na temporada.

Outro medo que Cuca enfrentou foi o da morte. O treinador contraiu coronavírus em novembro e ficou nove dias internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Teve lesões nos pulmões e hepatite em razão dos medicamentos, mas a pior notícia veio em Curitiba, onde seu sogro, Agostinho Maestrelli, morreu aos 81 anos em decorrência de complicações causadas pela covid-19 - dias antes de ser diagnosticado com a doença, Cuca havia recebido a visita de familiares em Santos, o que pode ter gerado os casos entre os parentes. Por tudo isso, apesar de comemorar a chegada do Santos à decisão da Libertadores, Cuca admite nesta entrevista ao Estadão que fica "pensando se é certo os times estarem jogando" durante a pandemia.

Por que confiava tanto que o Santos poderia conquistar a Libertadores?

Já pensava nisso (quando o Peres ligou). Primeiro que temos que ser realistas e dar valor às duas vitórias que o Santos tinha na Libertadores com o Jesualdo, era um caminho percorrido. Então, quando você tem um grupo reduzido igual ao nosso, ele vai ser para competição mais curta, de mata-mata, não para um campeonato com 38 rodadas que vai brindar o time com mais grupo. Vai ter lesão, suspensão, mau momento, covid... E aí é o grupo que ganha, e nós pensamos nisso, tentamos nos colocar na melhor condição dentro da Libertadores, às vezes abrindo mão do time titular em alguns jogos do Brasileiro, porque senão as chances de ganhar iam diminuir. A Copa do Brasil também é curta, mas nós já tínhamos duas vitórias na Libertadores, com boas chances de fazer boa campanha na fase de grupos e decidir os mata-matas em casa, que é muito importante, mesmo sem torcida, porque você não viaja, é sua casa, é seu campo, seu vestiário.

Como foi fazer o papel de "presidente" quando chegou em agosto?

Gosto do Peres. Todo mundo tem defeito, como eu, você, todo mundo. Gosto do (presidente entre setembro e dezembro Orlando) Rollo também. Quando o Marinho falou aquilo, é porque eu fui o elo deles, estava em função do clube naquele momento. Eles entenderam o momento que o clube passava. Jogando sempre aberto, falei "não temos isso, não temos aquilo, mas temos isso e precisamos treinar, temos que jogar". Quando teve os casos na Justiça, falei com os dois, falei com o Mattos. Revertemos o dinheiro das negociações em pagamento ao elenco. Ali deu uma diminuída boa na pressão, o pessoal pegou confiança e abraçou, entendeu os problemas e não se queixou mais de nada.

Acha que foi um momento fundamental para o restante da temporada?

Tinha o risco de um ganhar e outros poderiam ir dessa maneira. Quando conseguimos acabar com os julgamentos, blindamos tudo. Todos estavam esperando para ver o resultado do julgamento. Se um ganha, abre precedente para outros. Eu tinha muito receio disso. O Santos é muito grande para passar por uma situação assim. E eu falava para eles que sair pela porta dos fundos nunca é bom, que era importante sair pela porta da frente, e foi o que aconteceu.

Outro momento complicado na temporada foi ter contraído coronavírus. Como foram os dias internados? Temeu a morte?

Fui diagnosticado num sábado de manhã, antes do jogo contra o Bragantino. Vim para o treino e falei: "doutor, não estou legal". Ele me deu remédio e me deu taquicardia, o coração foi pra 150 (batimentos por minuto) e não baixava, respiração muito ofegante. Tentaram baixar com remédios, mas não conseguiram e fui para o hospital Beneficência Portuguesa, aqui em Santos. Depois, o doutor Fabio (Novi) me levou para São Paulo, colocou em risco ele próprio, que já teve câncer no cérebro, colocou a vida dele em risco por mim, parecia um bombeiro até, com todas as proteções, e fomos embora para o Sírio-Libanês. Lá, fiquei seis dias tomando medicamentos sob os cuidados da equipe do doutor Esper e da doutora Fabiana. No sexto dia, a doutora ficou mexendo no músculo do meu braço e falou "você está mal, vamos te levar para a Unidade Crítica Geral". Eu só falei "sério?" e fui lá para cima. Daí fui enfraquecendo, tive muita dor de cabeça e dificuldade para respirar, você vê que não é mais o dono das ações, isso é muito triste. A gente entende que é assim que pode acabar tudo, é muito difícil, ainda mais sem ver a família, não tem o que fazer.

Quando começou a melhorar?

No começo eu não conseguia ir nem para a cadeira que tinha do lado da cama, não tinha forças. Um dia consegui ir para aquela cadeira e coincidentemente a doutora entrou no quarto e me viu lá. Dali para frente, ela me fortaleceu, consegui melhorar, mas peguei hepatite medicamentosa e fui para Curitiba. Perdi meu sogro, que foi muito doído, ele era um amigaço meu e eu que peguei antes (o coronavírus). Em cinco dias, a gente perdeu ele, era idoso, mas tinha muita saúde, era carpinteiro, subia até no telhado. Foi muito triste.

Você já havia dedicado vitória ao seu sogro e também citado profissionais do futebol que morreram. Acha que os campeonatos deveriam ter voltado?

Sinceramente, eu estou numa final de Libertadores, mas fico pensando se é certo estarmos jogando. Se você não jogar, os clubes vão quebrar, os jogadores vão ficar desempregados. É toda uma cadeia que envolve. Ao mesmo tempo, não sabemos se é certo ou não, porque você está se expondo a um risco de morte muito grande. Só que a máquina tem que andar. Não sabemos o que é certo ou não, é largar nas mãos de Deus.

Voltando para a parte do time, como tem visto o amadurecimento de vários jovens da base?

Todo mundo está crescendo, tem jogadores com 16 e 17 anos que não são para hoje, vão evoluindo passo a passo. Todos eles vão evoluir gradativamente, um vai estourar daqui a um ano, outros daqui a dois, isso vai de cada um. É muito gratificante ver esses meninos crescerem assim.

Não ter torcida nos estádios é melhor para os garotos evoluírem sem tanta pressão?

São coisas que não tem como a gente medir, não dá para saber. É difícil falar, mas eles têm uma pressão menor. Se um jovem perder um gol e a torcida reclamar, não sei como ele reagiria. Teria que ter um parâmetro sem torcida e depois com torcida.

Acha que o Marinho é o melhor jogador do futebol brasileiro?

Sou suspeito para falar, porque gosto muito do Marinho. Ele é muito preocupado com a parte tática e com a parte coletiva, é muito responsável, é bom. Eu gosto de jogador assim, gosto muito do futebol dele, é um protagonista. Só que eu não saberia ver em relação aos outros jogadores que concorrem com ele, mas está entre os melhores.

Quais foram os conselhos quando ele estava incomodado por ser mais conhecido pelas brincadeiras e memes do que pelo futebol?

Eu tenho conversado muito com ele sobre isso, mas falo que ele não pode perder essa essência dele, de ser um pouco brincalhão. Tem que unir o carisma com o protagonismo que ele exerce em campo.

Acha que o Santos pode ser considerado "azarão" por todos os problemas que enfrentou?

Agora não. Ao longo da competição, até poderia ser, mas a final é um jogo só, tudo pode acontecer. São chances iguais, 50% para cada lado.

Gosta desse formato de final em jogo único?

Sei lá. O que é para ser vai ser nosso. Se não é para ser, não vai ser. Temos que pensar agora que um jogo só é bom, não podemos ficar pensando que poderia ser melhor se tivesse dois jogos. Estamos de parabéns por ter chegado.

Poder igualar Lula, Telê, Autuori e Felipão como técnicos bicampeões da Libertadores te motiva?

Eu penso zero nisso. Penso no coletivo, não vou pensar no individual. Penso em fazer o melhor, que o time possa chegar mais inteiro nesse jogo, que possa estar num dia inspirado e se Deus quiser sair com o título.

Essa campanha com o Santos tem alguma semelhança com a campanha do título com o Atlético-MG em 2013?

São distintas, mas sempre tem algumas coisas que podemos lembrar que são peculiares, como ter o mando de campo nos jogos decisivos. Decidir em casa é sempre favorável. Mas não tivemos tanta dramaticidade.

Nas quartas contra o Grêmio, você chamou o Zé Roberto para conversar com o elenco. Na semi contra o Boca, ligou para o Pelé falar com os jogadores. O que vai vir na decisão?

Não tem mais o que motivar, porque aí corre o risco de passar do limite. Uma decisão por si só já te motiva muito, não precisa de mais nada.

Como administrar o desgaste do elenco e manter o ritmo de jogo até dia 30?

Vou trabalhar como foi contra o Botafogo. Coloquei o que tinha de melhor. Não tinha dois jogadores (Luan Peres e Lucas Veríssimo) que estavam com problemas, mas o restante jogou. É seguir assim. Se tiver algum com dor ou risco maior de lesão, claro que vamos segurar. Vamos analisar, colocar num jogo e poder tirar de outro, mas vamos manter esse ritmo de jogo deles.

Você tem usado uma camiseta da Virgem Maria na Libertadores, como foi em 2013 e que continua guardada na sede do Atlético-MG. Como é esse seu lado religioso e supersticioso?

Falam que eu que sou o supersticioso, mas a camisa está lá no Galo até hoje, a calça roxa continua no Palmeiras (usada no título brasileiro de 2016)... E eu que sou o supersticioso (risos). Isso que é o gostoso. Que a camisa da Virgem Maria fique aqui também. Tem o lado da superstição, mas a camisa é o lado religioso, a Maria é uma só, é a mãe de Jesus, sou devoto e fã dela.

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