Dando tratos à bola

Livro de historiador trata de analisar o futebol sob as óticas sociológica, econômica, política e psicológica

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

"Dando tratos à bola" (Companhia das Letras) não é um livro fácil, é um livro necessário. É o futebol tratado por um acadêmico de alto nível, que o analisa usando as ferramentas da sua especialidade: história, sociologia, psicologia, economia, antropologia, etc.

Sucede a outro esplêndido livro do professor Hilário Franco Junior intitulado "A dança dos deuses", de 2007, que tratou o futebol com o mesmo método. "Dando tratos à bola" guarda semelhanças com o anterior, já que o assunto é o mesmo, mas com várias diferenças – a principal das quais, a meu ver, é que se ocupa muito mais do futebol brasileiro.

É claro que nesse livro, formado por capítulos independentes, há outras abordagens, geralmente apresentando visões originais e criativas a propósito do futebol, como quando aproxima o futebol do xadrez, com o goleiro representando o “rei” que deve ser protegido. Ou num capítulo, de nome “Meu vício é você”, onde desenvolve a hipótese de que futebol é também vício e o torcedor viciado, como por outra droga qualquer.

Os capítulos, no conjunto, são curtos, não muito mais do que meia dúzia de páginas, quase jornalísticos na sua forma e proporção.

A crítica rigorosa do historiador, por outro lado, não poupa nada quando trata do futebol brasileiro erguendo muitas vezes o véu de lugares-comuns, análises superficiais repetidas monotonamente ao longo de anos, espertezas que não resistem à análise séria, pequenas e grandes distorções do significado de conquistas, etc, etc.

Há toda uma parte do livro composta de vários pequenos capítulos, sob o título geral de “Personagens do Jogo”, onde clubes, craques, dirigentes e políticos são analisados impiedosamente com o risco de desagradar torcedores e autoridades. O autor não hesita em tocar em algo quase sagrado: a paixão do torcedor que o leva a negar qualquer crítica ao seu “clube do coração”.

O problema é que é difícil se opor a dados e números – armas habituais do historiador – exibidos substancialmente no decorrer do livro para legitimar suas afirmações. O capítulo “O imponderável no futebol”, porém, já nos adverte claramente de que o autor não despreza o acaso, o imprevisível, a sorte, importantíssima no futebol.

Esse olhar para o não científico indica também que estamos a um passo da presença do torcedor. No decorrer do livro é possível, através de indícios aqui e ali, perceber não só que o professor é um torcedor, mas até sua preferência clubística. Isso em nada o desabona, ao contrario, só o faz mais humano. Nas páginas possivelmente mais belas, e certamente as literariamente mais bem escritas do livro, o historiador subitamente dá lugar ao torcedor.

O capítulo se chama “As cores da vida”, peça única nesse livro de análises objetivas e distanciadas da paixão clubística. Tem sete páginas nas quais descreve a sensação de quem vê seu time pela televisão, desde um país estrangeiro: “O nome do clube pronunciado pelo locutor estrangeiro tinha perdido a sonoridade que eu estava acostumado o ouvir, a falar, a gritar nos estádios. Ele perdera assim um pouco da própria identidade. O hino do clube não foi tocado em um só verso, uma só nota, talvez porque os espectadores não fossem entender a letra. E dessa forma também desapareceu um outro elemento da personalidade clubística, que, desde criança escutei e cantei. Mas a camisa – naturalmente – estava lá”.

E o torcedor apaixonado defende com unhas e dentes a camisa de seu clube, inclusive as cores, cujo cromatismo considera superior diante das cores de qualquer outra camisa.

E ao fazê-lo, para não perder o costume, apoia-se em Paul Kaay, Platão, Hildergarda de Bingen, Lotário de Segni e Voltaire.

Isso já é golpe baixo.

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