Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Danilo Avelar reconhece ofensas racistas em partida de eSports e se desculpa em nota

Lateral do Corinthians, que postou a frase 'filho de uma rapariga preta' para um rival durante jogo Counter Strike, se diz envergonhado; ele é banido da plataforma

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2021 | 11h42

O lateral Danilo Avelar, do Corinthians, reconhece ter cometido ofensas raciais em uma partida do jogo online Counter Strike: Global Offensive (CS:GO) na noite desta terça-feira, dia 22. O perfil do jogador (D.A35) postou um comentário em que dizia a outro usuário: "Fih (filho) de uma rapariga preta". Além de racista, o comentário é misógino, ou seja, demonstra desprezo pelas mulheres. O caso ganhou repercussão nas redes e a principal torcida organizada do clube pede a rescisão de contrato.  

"Quero admitir meu erro. O que escrevi durante a partida não condiz com o que penso e o que vou ensinar a meu filho. Fui ofendido por um jogador estrangeiro na minha condição de brasileiro. Perdi a cabeça, mas infelizmente piorei a situação: cometi o grave erro de escrever a um adversário uma frase de conotação racista", publicou o jogador no Twitter na manhã desta quarta-feira, dia 23. 

Danilo Avelar afirma que se envergonha e pede desculpas. "Errei, falhei e me envergonho muito disso", diz em outro trecho da mensagem pelas redes sociais. "Gostaria de pedir desculpas a todos, sobretudo com a comunidade afrodescente", diz o corintiano.

Antes da divulgação da mensagem, o Corinthians divulgou nota oficial informando que estava  apurando o caso. A entrevista coletiva de imprensa do zagueiro João Victor, que estava previamente agendada para esta quarta-feira, foi cancelada. O clube deve tomar uma decisão sobre Danilo Avelar no decorrer do dia. O jogador também pediu desculpas ao clube. 

A denúncia havia sido feita por um dos jogadores que participava da partida. O codinome na plataforma que teria feito a ofensa é D.A35, que corresponde às iniciais do nome do jogador e o número da camisa que ele usa no Corinthians. Outros jogadores confirmaram que o apelido (nickname) se refere ao atleta.

Danilo Avelar jogava na Coliseum, plataforma privada de gerenciamento de partidas, quando fez a ofensa. A empresa informou que os dois envolvidos foram banidos por conta de "insulto racial". Eles já estavam banidos previamente até a apuração dos fatos. “A Coliseum repudia veementemente esse tipo de pensamento e conduta na plataforma, e todo e qualquer usuário que venha ter esse tipo de atitude, sofrerá a mesma punição”, informou a empresa em nota.

O caso teve grande repercussão nas redes sociais. Antes do pedido de desculpas, torcedores do Corinthians enviaram mensagens nos perfis do zagueiro para que ele se pronunciasse. No Twitter, inicialmente ele disse não saber do que se tratava a acusação e que estava averiguando os fatos. Nesta manhã, reconheceu o erro. Após o pedido de desculpas, um movimento de torcedores, em redes sociais, pressiona o clube a rescindir o contrato com o atleta. Ele tem vínculo até dezembro de 2022.

O movimento ganhou o apoio da principal torcida organizada do clube. "O time do povo, o time de todos. Não há paciência, e muito menos compreensão para qualquer ato de racismo. Os Gaviões da Fiel vêm, publicamente, pedir a expulsão imediata do jogador Danilo Avelar", escreveu a organizada em suas redes sociais.

Apaixonado pelos jogos on-line, Danilo Avelar é sócio da Bears eSports, organização criada para competir no CS:GO. Fã do game, Avelar é nome conhecido na comunidade do jogo, um dos mais famosos do universo de e-Sports. 

Sem atuar desde outubro de 2020 por causa do rompimento no ligamento cruzado do joelho direito, em lesão sofrida no clássico diante do Santos, o lateral não tem previsão de voltar aos gramados. Por causa da lesão do lateral-esquerdo de origem, mas que vinha atuando com o quarto zagueiro, a diretoria do Corinthians foi obrigada a pedir ao Cruzeiro o retorno do zagueiro Marllon

Caso comum

Para Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o caso "Danilo Avelar" é um exemplo típico dos episódios de discriminação que ocorrem no esporte brasileiro. "Por que as pessoas sempre dizem injúrias raciais quando 'perdem a cabeça'? Será que esse pensamento não está sempre presente? Essa é uma reflexão importante. A questão racial sempre está presente na hora de uma ofensa", questiona o especialista em questões raciais.  "O time do povo, o time de todos. Não há paciência, e muito menos compreensão para qualquer ato de racismo. Os Gaviões da Fiel vêm, publicamente, pedir a expulsão imediata do jogador Danilo Avelar", escreveu a organizada em suas redes sociais.

Por outro lado, Carvalho destaca o posicionamento do jogador, que assumiu a falha. "Em muitos casos, a pessoa não assume. Ele assumiu ter cometido um ato de racismo. Esse é um desdobramento diferente", opina. 

Pelo quarto ano consecutivo, o relatório do Observatório sobre os casos de racismo no esporte brasileiro apontou um aumento significativo no número dos casos. O estudo, divulgado no final do ano passado, mostrou um crescimento de 52,27% com relação ao de 2018. Ao todo, 67 denúncias foram feitas no Brasil e 15 ocorreram no exterior.

O crime de injúria racial está inserido no capítulo dos crimes contra a honra, previsto no parágrafo 3º do artigo 140 do Código Penal. Para sua caracterização é necessário que haja ofensa à dignidade de alguém, com base em elementos referentes à sua raça, cor, etnia, religião, idade ou deficiência. Nesta hipótese, a pena pode ir de 1 a 3 anos de reclusão. No caso de Danilo, seria necessário que a vítima apresentasse uma representação legal para a abertura de um processo. 

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