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De novo ao assunto

Os torcedores são invencíveis. É melhor os clubes aprenderem a dialogar

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 04h00

Volto a um assunto que já tratei aqui e gostaria de tratar de novo. Trata-se de aferir quanto da recuperação do São Paulo se deve à torcida. Não que o time esteja já recuperado, nunca se sabe. Está, porém, numa posição mais confortável do que esteve na maior parte do torneio. Na minha opinião, e posso estar errado, o São Paulo já se livrou da ameaça do rebaixamento e me alegro com isso. Não deveria, pois não torço para o time, mas me alegra. E tendo a atribuir à torcida grande importância na recuperação.

Claro, há outros fatores e personagens a serem considerados, mas eu poria em primeiro lugar a torcida. E como começou isso tudo? Começou num momento particularmente perigoso quando os protestos dos torcedores ameaçavam virar violência como de hábito. Alguém sugeriu que se atendesse a uma solicitação, ou imposição, tanto faz, dos torcedores para uma reunião em que, cara a cara, pudessem discutir questões com os atletas.

A reunião, surpreendentemente, foi feita, talvez provocada pela situação desesperada da diretoria. O fato é que não houve violência alguma, como se apregoava em certos círculos, houve presença de lideranças, como Raí, e tudo mudou. Não soube e não me importa saber o que houve nessa reunião.

O fato é que nunca mais se sentiu qualquer ameaça contra jogadores, clube e diretoria. O que os torcedores pretendiam aparentemente foi atendido, que seria, segundo suponho, se fazer ouvir e dizer aos jogadores o que pensavam. Atendida essa sugestão, houve uma modificação importante, ainda mais surpreendente porque o time continuou perdendo, e os torcedores continuaram apoiando apesar de tudo. Cansei de ver gente descendo em direção do Pacaembu vestindo a camisa tricolor como se o time estivesse disputando as primeiras posições.

Não havia nada que indicasse que estava entre os últimos. É claro que a diretoria contribuiu com sua parte e diminuiu o preço dos ingressos, ajudando a fazer com que o velho estádio do Pacaembu, exatamente no momento em que pretendem descaracterizá-lo e destruí-lo pelo menos na sua essência, fosse de novo palco de multidões desvairadas como quando era orgulhosamente chamado de o “próprio da municipalidade”. Apesar do resultado visível a quem quisesse ver, não houve aprovação unânime sobre a atitude tomada pela diretoria do São Paulo, ao contrário, houve muita crítica.

O fato é que, queiram os críticos ou não, nunca uma torcida se uniu a um time como nesse momento, acompanhando a equipe por todo o País em vitórias e, sobretudo, derrotas.

Volto a dizer que atribuo tudo isso à reunião tão discutida. E aproveito para perguntar: o que certas pessoas têm contra o diálogo? Provavelmente nada se o diálogo for entre “iguais”, entre pessoas “educadas”, do mesmo extrato social e falando o mesmo tipo de português. Nessa eventualidade o diálogo é até agradável. O que não se aceita é o diálogo entre desiguais. O que não se aceita é falar com gente que “não sabe seu lugar”. Acho difícil realmente dialogar com torcedores, principalmente os organizados. São grossos, falam alto, metem o dedo na cara de qualquer um, usam um palavreado quase incompreensível e algumas vezes são difíceis de se fazer sequer entender.

Mas essa é a massa de torcedores do País. O futebol pode ter aspectos tremendamente odiosos, cheio de corrupção e corruptos, mas uma coisa boa ele tem: nunca dispensou ninguém, sempre abrigou a todos. Num momento em que há clara tentativa para afastar grossos, malvados e vulgares dos estádios, ouso humildemente fazer uma previsão: não conseguirão. Eles são invencíveis e são uma das razões de existência do futebol. É melhor apreender a dialogar, como fez o São Paulo.

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