De pai para filho

De vez em quando os berros indicavam que alguma coisa tinha acontecido no campo

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 04h00

Recebi de um amigo a seguinte mensagem: “Ugo, fui matar as saudades do Pacaembu e ver Corinthians e Ponte. Que horror....Ver o Kazim jogar me fez ter saudades até do Geraldão. Foi tão ruim que o pai leva o filho e ele prefere jogar vídeo game durante a partida”. O relato era acompanhado e uma foto onde se podia ver um garoto nos ombros do pai, os dois no meio da torcida, todos em pé. O garoto nos ombros do pai era visto de costas, tendo como fundo o campo e o jogo. Nas mãos tinha um celular, para o qual olhava atentamente.

Intrigado pelo texto e pela foto, não resisti e liguei pro meu amigo. Confesso que os esclarecimentos que ele me prestou me fizeram rir muito, embora talvez devesse chorar. De fato o estágio de selvageria em que chegamos por vezes ronda a comédia; às vezes é muito engraçado pelo exagero do escracho e também pela naturalidade com que ele é aceito. Devo esclarecer que meu amigo é um homem de meia-idade, bem-sucedido na vida, que só foi se meter nas populares do estádio por insistência de seu próprio filho que costuma ver o jogo nesse lugar. Fazia tempo, portanto, que não passava pela experiência do contato com a massa realmente como ela é.

De cara foi advertido que era proibido sentar. Sim, hoje todo mundo tem que ver jogo em pé, não importa a idade, o tamanho ou o peso. Infringir essa regra ocasiona a imediata punição do desobediente, alvo de bolas de papel encharcado sabe Deus do que, e objetos de variados tamanhos e procedências, acompanhados da advertência em coro: “levanta c..., que o jogo é do Timão!” Não era essa, infelizmente, a única dificuldade que se interpunha entre meu amigo e o jogo. Havia mais.

Mal iniciada a partida, alguém bem na sua frente, em pé como todos os demais, levantou o filho nos ombros, portanto a uma altura que impediria a completa visão do campo de quem estava atrás. Meu amigo estava atrás. Ninguém pareceu achar nada de estranho, nem o pai que levantava o garoto nem outros espectadores que como meu amigo tinham sua visão diminuída.

Como a presença do garoto se impunha forçosamente, meu amigo se pôs a examiná-lo. Notou que o garoto, celular em punho, sequer via o jogo. Da sua posição, meu amigo podia ver o que havia na tela do celular. Espantado, viu que não era futebol. O garoto que nos ombros do pai impedia outros de ver bem a partida também não a via. Na tela do computador rolava um game que nada tinha a ver com o futebol. Pelo menos o pai que sustentava o pimpolho nos ombros olhava para o campo. Era, aliás, um dos poucos.

Rapidamente meu amigo compreendeu por que todos preferiam assistir ao jogo em pé. Ninguém rigorosamente estava interessado no jogo. Conversavam, gritavam, iam de um grupelho para outro, viravam para trás, se insultavam alegremente, entoavam cânticos absurdos, tudo de costas para o campo. Em suma, viam tanto do jogo quanto o garoto no seu celular.

De vez em quando os berros indicavam que alguma coisa tinha acontecido no campo. Os torcedores então se viravam momentaneamente para ver o lance. O jogo acabou e só então o menino desceu dos ombros do pai e os dois desapareceram rapidamente, cada um com suas lembranças. Ele, talvez do jogo, o menino do game. Meu amigo com saudades do Geraldão.

Esta coluna fala de parte da torcida do Corinthians, mas poderia dizer o mesmo de qualquer torcida dos grandes clubes. O comportamento que meu amigo descreveu é geral. Finalizo, porém, com uma informação. Apesar de tudo, prefiro esse comportamento selvagem, vulgar e agressivo do que o higienismo e a segregação praticada em vários campos por aí. Ainda bem que o Pacaembu continua aberto.

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