Divulgação/ Wuhan Zall
Divulgação/ Wuhan Zall

De volta a Wuhan, atacante brasileiro descreve clima na cidade marco zero do coronavírus

Rafael Silva, do Wuhan Zall, conta o que sentiu ao retornar ao local depois de mais de três meses fora

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 12h00

Apontada como a cidade onde começou a pandemia do novo coronavírusWuhan, na China, recebeu com emoção jogadores e comissão técnica do Wuhan Zall, time local que disputa a divisão de elite do Campeonato Chinês. Entre os atletas que regressaram recentemente às suas casas depois de 104 dias fora está o brasileiro Rafael Silva

Em entrevista ao Estado, o atacante, que tem passagem pelas categorias de base do Corinthians e foi revelado pelo Coritiba, contou suas impressões ao retornar a Wuhan depois de mais de três meses ausente. Os sentimentos foram contrastantes logo que desembarcou na estação de trem, onde torcedores esperavam o elenco com faixas de boas-vindas. O técnico espanhol José González recebeu até um buquê de flores de presente.

"Foi uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo legal e bacana. Estávamos voltando para a cidade onde tudo começou. E o torcedor estava nos esperando na estação de trem de braços abertos. Mas é esquisito ver uma cidade tão movimentada com pouca gente na rua agora. Está tudo fechando cedo", relatou.

A volta de Rafael e de todo o time para suas casas só foi possível porque a cidade, primeiro epicentro da doença no mundo, já saiu do confinamento a que foi sujeitada devido ao surto que rapidamente se propagou pelo país, dando origem a uma pandemia reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sem precedentes. Wuhan virou uma cidade fantasma.

Para se afastar da covid-19, o elenco do Wuhan Zall viajou em janeiro até Guangzhou, a mais de mil quilômetros de distância. Depois, com o crescimento do surto na China, a equipe foi continuar sua pré-temporada na Espanha, em Sotogrande, próximo a Cádiz. Com o país europeu tomado pela doença também - é, até hoje, o segundo do mundo com mais casos registrados -, o time decidiu voltar à China para ficar em Shenzhen, onde a delegação permaneceu confinada em um hotel por duas semanas, cumprindo protocolo destinado a quem vinha do exterior. 

"Fomos testados assim que chegamos em Wuhan e ainda ficamos em quarentena. Fiquei num hotel por duas semanas aguardando o período estipulado pelos órgãos de saúde. Não podíamos sair do quarto. Recebíamos a alimentação ali mesmo. Foi complicado, pois foram muitos dias de isolamento", disse o atacante. O périplo do time só terminaria depois de 104 dias.

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Fiquei num hotel por duas semanas aguardando o período estipulado pelos órgãos de saúde. Não podíamos sair do quarto. Recebíamos a alimentação ali
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Rafael Silva, atacante do Wuhan Zall

Capital da província de Hubei, a metrópole de 11 milhões de habitantes em que o jogador mora desde 2018 ficou isolada do restante da China de 23 de janeiro a 8 de abril. Eles viveram a epidemia antes do mundo, já em dezembro. No total, Wuhan registrou mais de 67 mil casos da covid-19 dos quase 84 mil confirmados em todo o país asiático. Ainda que todos pacientes já tenham recebido alta e a província esteja livre do vírus, segundo declarou no fim de abril o porta-voz da Comissão Nacional de Saúde da China, Mi Feng, a normalidade não se fixou e as pessoas continuam receosas e prevenidas, conta o atleta.

"As coisas estão melhorando aos poucos, vemos uma evolução em relação ao controle da doença, mas ainda vemos todo mundo preocupado", afirmou o jogador, que contou que todos os atletas do país são testados diariamente antes dos treinamentos, que já foram retomados. "O pessoal tira uma gotinha de sangue para fazer o teste. Tiram a temperatura também. Estamos seguindo todos os protocolos de higiene com álcool em gel em todos os lugares."

O comércio foi reaberto em 30 de março e as pessoas foram liberadas para voltar ao trabalho a partir de 8 abril. No entanto, mesmo com o fim das medidas restritivas, os cidadãos não se atrevem a baixar a guarda onde a pandemia eclodiu. As autoridades colocaram uma série de restrições às viagens partindo de Wuhan, especialmente à capital Pequim. Os voos ainda nao foram retomados e só podem viajar mil pessoas por dia nesta rota. O indivíduo tem de pedir permissão às autoridades para se deslocar à capital e precisa passar por um exame de detecção do coronavírus, cujo resultado sai em 48 horas.

Grande parte de quem mora na cidade marco zero da doença ainda usa máscara. Há guardas espalhados para assegurar que haja o distanciamento social necessário.

A rotina do atacante, que jogou no futebol suíço e japonês antes de se aventurar na liga chinesa, ainda é restrita apenas às atividades essenciais. "Eu só vou para o treino e volto para casa. Não faço mais nada. Além disso, saio apenas para ir ao mercado", afirmou ao Estado. O jogador revelou que o governo chinês monitora a população por meio de um sistema de QR Code que é capaz de identificar, por exemplo, quem cumpriu a quarentena e já foi testado.

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Eu só vou para o treino e volto pra casa
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Rafael Silva, atacante do Wuhan Zall

Mesmo com a retomada dos treinamentos, ainda não há uma definição quanto ao início do Campeonato Chinês. O torneio começaria no dia 22 de fevereiro, mas foi adiado indefinidamente assim que o contágio da doença se intensificou. Há a expectativa de que a bola comece a rolar no fim de maio ou início de junho, embora nenhum prazo tenha sido estipulado pela federação local. O que o jogador sabe é que seu salário e o dos companheiros será reduzido em uma porcentagem ainda não revelada.

"Estamos treinando e aguardando a definição de tudo. É difícil dizer com certeza quando tudo voltará ao normal, inclusive o esporte", avaliou. Sua namorada estava com ele na China, mas decidiu voltar ao Brasil neste momento. Rafael Silva tem bons números com a camisa do Wuhan Zall. Marcou 31 gols em 38 partidas nas duas temporadas. 

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