Nilton Fukuda/Estadão
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Década de transformação

O jeito que fazemos, e consumimos, futebol no Brasil vai mudar nos próximos anos

Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2020 | 04h00

A década também promete ser transformadora no futebol. Em todos os sentidos, talvez exceto dentro de campo, onde tática e técnica continuarão a se combinar, escoradas pelo condicionamento físico e magia com a bola nos pés.

Os clubes brasileiros terão de ser mais efetivos. Alguns já trilham por esse caminho. O futebol entrará na era dos resultados. Essa concepção deixará de ser simbólica para nortear as decisões dos gestores. Será proibido, como se já não se fosse, “rasgar” dinheiro. As contratações terão de ser cada vez mais cirúrgicas, de modo a não perder dinheiro com jogadores que não darão resultados. Dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro do ano passado, talvez apenas o Flamengo tenha um ou dois bons jogadores em cada posição. Não precisa mais do que isso. Um elenco de 22 atletas de alta qualidade, com mais três ou quatro jogadores que possam fazer mais de uma função, fecha o grupo sem sobressaltos. Justo.

O futebol e as finanças dos clubes do Brasil, sempre com o pires na mão, não permitem mais que um jogador passe temporadas ganhando salário não condizente com sua produtividade.

Produção será uma das palavras mágicas dos administradores do futebol. As peneiras dos grandes times serão mais “fechadas”. Jogador ruim não passará. Jogador sem vontade ficará preso em suas teias. Num curto espaço de tempo, deixará de existir no futebol brasileiro aquele atleta “para compor elenco”, sem qualquer responsabilidade de ajudar a equipe a não ser nas formações dos coletivos em treino – sempre, claro, na equipe reserva.

Do mesmo modo, os clubes terão de repensar, em parceria com as federações, suas participações nos torneios, de modo a não mais abraçar o mundo e, ao mesmo tempo, formar times diferentes para competições diferentes. Na Europa, por exemplo, as ligas nacionais, a Liga dos Campeões e as Copas dos países são as únicas disputas no calendário anual dos grandes times.

No Brasil, as equipes famosas jogam demais e isso acaba reduzindo o interesse do torcedor. Ele sabe que, se perder o jogo da quarta-feira, poderá assistir ao do domingo. E acaba não tendo saudades da equipe para a qual torce, como geralmente temos no recesso do fim de dezembro e começo de janeiro.

O calendário ainda será mais humano com os jogadores. Menos jogos implica diretamente na qualidade das partidas. Menos jogos significa menos contusão, menos suspensão, menos desgaste físico. Em outras palavras, poderemos ver um Arrascaeta sempre pronto para fazer boas apresentações.

Os jogadores de destaque serão mais bem pagos, assim como os treinadores deixarão de pedir fortunas e fazer exigências de mitos do rock para assinar um contrato. Já era o tempo dos treinadores comuns e sem pegada, de parco conhecimento técnico e tático, apegados unicamente ao emocional para motivar elenco. Esses ou vão sumir ou custar bem baratinho.

O torcedor também vai mudar. Será chamado “consumidor” e vai exigir seus direitos, como qualidade dos estádios, da bola, do assento, do ar condicionado, do lanche, do picolé, da visão do campo, talvez até da entrevista do jogador do seu time que fala diretamente para ele por meio dos veículos de comunicação. O torcedor/consumidor não quer mais se sentar no cimentão frio.

Na arbitragem, teremos de aprimorar o VAR. As imagens serão mais bem analisadas, continuarão falíveis, mas terá gente mais bem preparada no comando, do árbitro de campo ao primeiro juiz da mesa. Só assim ganharão relevância e paz.

Por fim, empresas com direitos das transmissão vão assumir de vez o streaming e entregar conteúdo em qualquer lugar e hora. Pago. Vão cobrar mais entrega dos times. Entenda-se um futebol de primeira.

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