Decisão de apoiar Catar para a Copa teria sido do governo brasileiro

Decisão de apoiar Catar para a Copa teria sido do governo brasileiro

CBF votou em 2010 pelo país do Oriente Médio para sediar Mundial de 2022; porém, escolha foi fruto de um acordo entre as autoridades

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

01 de dezembro de 2014 | 11h48

O voto ao Catar para sediar a Copa de 2022 teria sido uma decisão do governo brasileiro num acordo fechado diretamente com as autoridades do país do Golfo Pérsico. A revelação foi submetida ao Parlamento Britânico pelo jornal Sunday Times que coletou informações com agentes  de inteligência que fizeram parte da campanha da Inglaterra para tentar sediar a Copa de 2018.

As evidências foram apresentadas ao jornal inglês ao Parlamento em uma investigação que ocorre no Poder Legislativo britânico em relação à forma pela qual as Copas de 2018 e de 2022 foram estipuladas. O Estado obteve uma cópia das evidências entregues ao Parlamento, datadas de novembro de 2014.

A escolha das sedes ocorreu em dezembro de 2010 e, entre os cartolas com poder para decidir quem receberia a Copa do Mundo, estava Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF e ex-membro do Comitê Executivo da Fifa. Oficialmente, a CBF vota sem qualquer consideração política e o voto não é do país, mas do cartola que ocupa o cargo na Fifa.

Mas o jornal britânico afirma ter obtido acesso privilegiado a um banco de dados feito por operadores da campanha frustrada dos ingleses e que reúne detalhes de diversas fontes oficiais apontando como ocorreriam os votos e quais seriam os acordos.

No que se refere ao voto de Teixeira ao Catar e do argentino Julio Grondona também à candidatura árabe, a revelação é de que o entendimento não foi feito entre cartolas. Mas sim entre políticos. "Foi no nível de governo a governo que eles garantiram o voto de Grondona e de Teixeira, ambos corruptos", indicou a fonte citada no documento entregue ao Parlamento Britânico.

Naquele ano, o Brasil era governado por Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou a viajar ao Catar. Há duas semanas, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, também esteve em Doha e garantiu o apoio do País na organização do torneio em 2022 no Catar.

Segundo uma das fontes envolvidas no processo e citadas de forma anônima nos documentos, existiam antes de 2010 dois "rumores" sobre o motivo pelo qual os países sul-americanos votaram pelo Catar.

O primeiro deles se refere a uma ajuda que o país árabe prestaria aos argentinos. "O governo do Catar e empresas do Catar, seja la quem fosse, teriam fechado um entendimento para bancar as perdas da Associação de Futebol da Argentina com um acordo de concessão de direitos e porque a economia argentina estava com problemas", indicou a fonte. Segundo ele, o Catar "decidiu atendeu ao déficit de alguma forma".

O segundo "rumor" apresentado ao Parlamento se refere ao Brasil. "Eles (o Catar) concordaram em pagar qualquer déficit no custo dos gastos com infra-estrutura no Brasil. Agora, pode não ser tão amplo assim. Pode ser que seja em apenas um aspecto particular, um estádio em específico", indicou.

INVESTIGAÇÃO

A investigação no Reino Unido ocorre depois que a Fifa absolveu o Catar e a Rússia de qualquer ilegalidade na escolha das sedes para as Copas de 2018 e 2022. Num informe publicado há duas semanas, a Fifa admitiu que certos cartolas cometeram atos ilegais. Mas nada que poderia ser suficiente para invalidar o processo.

No domingo, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, desafiou as críticas internacionais e garantiu que "a Copa de 2022 será disputada no Catar". Sua confirmação ocorreu na reunião da Confederação Asiática de Futebol, em Manila. Blatter, no evento, pedia votos para sua campanha para mais um mandato diante da Fifa, em 2015.

Há duas semanas, o Estado revelou com exclusividade que a empresa que pagou por um amistoso entre Brasil x Argentina em novembro de 2010 no Catar é a mesma que hoje constrói o local da final da Copa de 2022.

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