Cleberson Silva/Divulgação
Cleberson Silva/Divulgação

Decisão de Caio Júnior salvou a vida de goleiro da Chapecoense

Antigo titular, Marcelo Boeck foi preterido de viagem pelo treinador

Daniel Batista, enviado especial a Chapecó, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2016 | 15h55

Há cerca de três meses, Marcelo Boeck sentia uma mescla de tristeza e irritação e se perguntava o motivo de ter sido sacado do time pelo técnico Caio Júnior. Hoje, vê que a decisão do treinador salvou sua vida. O goleiro de 32 anos deveria estar no avião que caiu em Medellín no início da semana passada, mas escapou da morte graças ao treinador, que preferiu levar Danilo e Jackson Follmann para a partida contra o Atlético Nacional.

"Eu era titular e há uns três meses, o Caio Júnior optou pelo Danilo. Fica o peso por saber que eu poderia estar lá, mas não podemos deixar o sonho da Chapecoense acabar e ser enterrado junto com os corpos", diz o goleiro, que tem contrato até o fim do ano, mas gostaria de renovar o vínculo com o clube. "Não pelo dinheiro, mas pelo caráter e pelo coração. Eu vou pedir para ficar", explica.

Quando deixou o time para a entrada de Danilo, Boeck tentava encontrar motivos para a decisão do treinador. "Pensei que era algo injusto, que eu não servia para nada, mas respeitei, até pela união que nós tínhamos. Hoje, a gente vê que talvez fosse algo planejado por Deus, pois muitas famílias não terão mais seu pai, filho ou marido e a minha quase foi uma delas", recorda, claramente emocionado.

O goleiro chegou à Chapecoense em fevereiro deste ano, após passagens por clubes de Portugal. Ele ainda fez parte do elenco do Inter campeão mundial e da Libertadores de 2006. "Nessas horas que a gente vê que a fama e o dinheiro não valem nada se comparados à nossa vida", comenta.

Boeck e seu filho mais velho, de 6 anos, completaram aniversário na segunda-feira e celebram juntos. Horas depois, veio a notícia da tragédia, que atinge não só o goleiro como também seus familiares. Era normal durante os treinos, os filhos dos jogadores irem até a Arena Condá para acompanhar a atividade dos pais. Tudo acabou. O goleiro tentou explicar para o filho o que aconteceu.

"Meus filhos acham que estou treinando todos os dias, normalmente. Eu chego em casa e eles começam a cantar 'vamos, vamos Chape'. Contei para meu filho que os amiguinhos dele estão tristes e precisam de carinho, porque perderam seus pais e que ele precisa valorizar que tem o dele por perto, assim como valorizo minha família."

O jogador ficou sabendo da tragédia ainda pela madrugada e só viu "cair a ficha" pouco depois, quando sua mulher disse que se o acidente tivesse ocorrido pouco antes, quando ele ainda estava jogando, era ela quem teria que dar a notícia mais difícil da sua vida para os filhos.

Uma das características mais comentadas do elenco da Chapecoense é o bom relacionamento entre os jogadores. Para reforçar isso, Boeck conta que ficará como lembrança, a amizade e o carinho, não as cenas trágicas vistas recentemente.

"Por ser meu aniversário na segunda-feira, recebi muitas mensagens no WhatsApp do grupo que a gente criou entre os jogadores. Muita brincadeira, alegria e palavras sinceras, de amigo. Por isso, quero que fique marcado isso", conta.

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