Deivid e Gil combinam jogadas mortais

Uma jogada combinada entre Deivid e Gil, ali, no meio-do-campo, pouco antes de o juiz gaúcho Carlos Eugênio Simon autorizar o início do segundo tempo entre Corinthians e Brasiliense, valeu mais do que qualquer estratégia armada pelos treinadores Carlos Alberto Parreira e Péricles Chamusca sobre a melhor forma de se abrir ou fechar uma defesa. Os dois atacantes do time paulista haviam sido bem marcados no primeiro tempo e eles temiam que a retranca seria mais dura no segundo. Por isso, tendo como base o entendimento entre os dois desde o início da temporada, resolveram "Aí, eu falei para o Gil: você vai até a linha de fundo com a bola; eu fecho no primeiro pau, mas você cruza no segundo; eu volto em um segundo e faço o gol.Meu marcador vai ficar no meio do caminho. Assim, fizemos e deu certo", conta Deivid sobre o lance que deu origem ao primeiro gol do Corinthians na vitória sobre o Brasiliense por 2 a 1, quarta-feira, no Morumbi, na primeira partida da final da Copa do Brasil. Gil, que fez ainda o passe para o companheiro marcar o segundo gol do time, desempatando o jogo, confirma a história. "Saiu ali na hora, sem ensaio. Quando a gente está entrosado parece que fica fácil", ressalta. Com os dois gols marcados quarta-feira, Deivid entrou para a história da Copa do Brasil como o maior artilheiro da competição. Em 10 jogos, marcou 12 gols, superando Washington, que marcou 11 pela Ponte Preta. "Meu objetivo já alcancei, agora posso até ampliar essa marca na partida de quarta-feira, em Brasília, mas agora quero mesmo é ganhar o Torneio Rio-São Paulo, domingo contra o São Paulo, e depois a Copa do Brasil. Já cansei de ser vice. Quero ser campeão pela primeira vez na vida, e ganhando dois campeonatos seguidos", disse o atacante, que, de tão emocionado com a vitória e os gols marcados contra o Brasiliense, foi dormir mais de três hora da madrugada de hoje. "Não conseguia pegar no sono. O jogo não saia da minha cabeça." Além dos lances da partida, Deivid estava preocupado com sua mãe, Maria, que mora em Marechal Hermes, no Rio. Ele tem problemas cardíacos, e foi proibida pelo filho de assistir qualquer jogo do Corinthians que ele participe. "Minha mãe está com cirurgia marcada para depois dessas finais. Até lá, não quero que me veja jogando. Ela fica muito nervosa, pode ter uma complicação séria." Hoje, pela manhã, antes de sair de casa, no bairro de Perdizes, para se apresentar novamente ao Corinthians, no Parque São Jorge, Deivid telefonou para a mãe. Ela realmente não havia assistido ao jogo pela televisão. Dormiu cedo, e só pela manhã é que soube do resultado da partida e do desempenho do filho em campo. "Tudo o que eu tenho devo a minha mãe. Não fosse ela, eu estaria em outra atividade." Deivid praticamente nem chegou a conhecer seu pai, Jorge, que faleceu dois meses depois do seu nascimento. Com a pequena aposentadoria que lhe sobrou como herança, dona Maria criou Deivid e os seis com muita dificuldade. O futebol sempre foi a paixão do atacante do Corinthians. Mas no começo da carreira, ele pensou em parar com tudo, tentar outra profissão, trabalhar para ajudar em casa. "Não podia ficar arriscando em uma coisa que talvez nem desse certo. Mas minha mãe não me deixou abandonar o futebol, porque era o que eu realmente queria. Ela continuou me dando dinheiro para eu treinar, fazer testes e comprar as chuteiras. Graças a Deus, depois de muito sacrifício, deu certo. Eu até comprei uma casa para minha mãe, que também não depende mais da aposentadoria", contou, hoje, Deivid, emocionado, que ainda sustenta quatro sobrinhos, filhos da irmã Magna. "Ela faleceu e eu assumi a responsabilidade pelas crianças." Devoto de Santo Expedito e de Nossa Senhora Aparecida, Deivid admitiu que sua vida começou mesmo a mudar no dia em que saiu do Joinville (depois do início no Nova Iguaçu) para fazer testes na peneira do Santos, em 1997. Pelé, auxiliado pelo ex-zagueiro argentino Ramos Delgado, era quem dava a palavra final. "Depois de um treino, Pelé chegou para mim e disse: garoto, você é bom. Foi aprovado, vai ficar", conta Deivid, que até hoje não se esquece dessa conversa

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