Paulo Giandalia/Estadão
Paulo Giandalia/Estadão

Deixa a pelada pra eles

As moças aterrissaram aonde os rapazes sonhavam ser o seu último reduto

Maitê Proença*, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2018 | 04h00

O futebol arrebata o mundo. Que nível tomou, subiu um degrau e como ficaram inesperadas as partidas. Batem corações de todas as origens. Não foi sempre assim, o football já foi deleite de grã-finos apenas. Em 1800, quando chegou ao Brasil, os jogos eram matches, goleiros, keepers, e não havia negros em campo, não caía bem às hipocrisias da época. Mas havia mulheres, ainda que só na assistência e devidamente adornadas para envaidecer os maridos. Ao se tornar popular, o futebol baniu as moças dos estádios, e tenho pra mim que os homens preferiram assim, ficando mais livres para suas manifestações espontâneas. Pena, perdemos um cenário para desfilar chapéus. E mais. Além de não termos nada que se assemelhe a uma pelada com amigos, fomos afastadas por tempo demais dos efeitos benéficos do futebol-espetáculo.

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Onde aprender a vida? Na tensão do trabalho, no corre-corre da repetição diária, nas redes sociais, no salão? O convívio com a bola tem me mostrado que futebol é filosofia, é o viver em estado bruto, é matéria para se pensar. A gente aprende que a sorte é mais determinante que o mérito, que o ladrão de hoje é o aliado de amanhã, que na vitória ou derrota a vida segue soberana. O mundo se encontra em trânsito de uma era pra outra e ninguém entende patavina. É bom que a Copa esteja aí para lembrar os fatos como sempre foram. E é ótimo que as mulheres tenham voltado aos campos, e tão diferentes dos bibelôs de outrora.

Nas arquibancadas há iranianas sem véu, há meninas de toda idade e cor, e cresce o número de repórteres. Elas recebem cantadas, insultos, mas não se intimidam. Uma campanha, lançada por jornalistas do esporte, aborda o assédio. A ideia surgiu com Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, após ter sido beijada à força por um torcedor ao vivo. Aderiram Fernanda Gentil, Cris Dias e Carol Barcellos, e o movimento #deixaelatrabalhar só faz crescer. Rapazes estúpidos têm seu vídeo viralizado ao fazerem coro sobre as partes íntimas de uma loira desconhecedora do teor da “brincadeira”. O machismo não é exclusividade do futebol, mas talvez nele se manifeste com mais virulência, afinal, era tão bom sem elas... Outra repórter foi assediada esta semana quando se preparava pra entrar no ar. Profissionais relatam insinuações de que seus furos são conseguidos com métodos pouco profissionais e as moças trabalham dobrado pra provar que não estão ali de enfeite.

 

Ainda assim, sinto pelos rapazes. Não foram preparados para o que está por vir. Acontecerá um corte repentino em seus hábitos, a internet cuidará disso e é pra ontem. As moças aterrissaram aonde eles sonhavam ser o seu último reduto. Aonde irão extravasar suas cafajestadas cabeludas? Apoio o #deixaelatrabalhar, e chega de assédio! Mas vamos dar uma colher? Sugiro que a pelada siga sendo só deles. Quando acabar a Copa e a rotina voltar aborrecida, deixemos os machos escaparem nas quartas à noite. Eles necessitam de uma porta dos fundos para que não se tomem de selvagerias estádios, ruas, dentro de casa. Que os meninos possam se divertir. Se os privarmos do deleite, se transformarão em alcoólatras descompensados, em cocainômanos contumazes, em galinhas compulsivos, em agressores que talvez não fossem, se pudessem escoar suas impudências no futebol das várzeas, na cervejada e naquela conversa sem travas, tão grossa quanto é inocente.

  

*ATRIZ E ESCRITORA

 

 

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