Stefano Rellandini/Reuters
Stefano Rellandini/Reuters

Depois de chegar ao fundo do poço, Juventus ressurge na Europa

Clube foi rebaixado em 2006 por manipulação de resultados

Luís Augusto Monaco, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2015 | 07h00

A Juventus chegou ao ponto mais baixo de sua história de 118 anos em 2006. Condenada pelo envolvimento num escândalo de manipulação de resultados, teve revogados os títulos nacionais ganhos nos dois anos anteriores e foi rebaixada para a Série B. Estrelas como o zagueiro Cannavaro, que havia acabado de ser o capitão da Itália na conquista do Mundial disputado na Alemanha, e o atacante sueco Ibrahimovic , deixaram o clube para não passar por essa provação. E lá se foi a Velha Senhora, o maior campeão do futebol italiano, enfrentar o calvário de lutar pela promoção em estádios acanhados e sem glamour.

Guiado pelos ídolos Buffon e Del Piero, o time subiu sem dificuldade logo no primeiro ano. Mas o retorno aos tempos de glória demorou mais um pouco. E só ocorreu depois de um fato que se mostrou fundamental para a Juve recuperar seu prestígio e sua força: a inauguração do estádio, em setembro de 2011. De lá para cá o time venceu com autoridade os quatro Campeonatos Italianos com números impressionantes, e agora está de volta à final da Liga dos Campeões depois de uma ausência de 12 anos.

A Juventus transformou sua arena numa grande fonte de receita e num caldeirão que intimida os adversários. Em 102 jogos disputados ali, ganhou 78, empatou 20 e perdeu apenas quatro. Ganhou o título de 2011/2012 - o primeiro campeonato em que mandou as partidas na casa nova - invicta, no ano seguinte colocou nove pontos de vantagem sobre o Napoli, em 2013/2014 bateu o recorde europeu de pontos com 102 (17 à frente da Roma), e nesta temporada está com 16 pontos a mais do que a Roma e ainda faltam três rodadas.

Em termos de faturamento, o clube passou a ter uma grande vantagem sobre os concorrentes italianos depois da construção do estádio. Isso porque é o único grande do país que é dono do campo em que joga. Os outros precisam pagar aluguel às prefeituras, e não têm autonomia para fazer obras ou explorar comercialmente as arenas. É assim em Milão, Roma, Nápoles e Florença. Não por acaso, o sucesso da Juve motivou Milan e Roma a anunciar que vão construir estádios próprios.

O Juventus Stadium foi erguido em pouco mais de dois anos no lugar onde existia o Delle Alpi, que recebeu jogos da Copa do Mundo de 1990. Custou 125 milhões de euros (R$ 431,2 milhões pelo câmbio de hoje), um valor baixo se comparado a quanto custaram as arenas usadas no Mundial de 2014 (o Itaquerão e o Mané Garrincha, por exemplo, saíram por mais de R$ 1 bilhão).

Dessa quantia, 42 milhões de euros (R$ 145 milhões) foram pagos pela agência de marketing esportivo Sportfive antes do início das obras como parte do acordo de 75 milhões de euros (R$ 258,7 milhões) que lhe dá o direito de vender os "naming rights" e ficar com 50% da renda obtida com a venda de camarotes e de cadeiras na área VIP até 2023 - a empresa ainda não vendeu os "naming rights" por julgar que nenhuma proposta recebida está à altura da excelência do local, que tem um centro comercial de 34 mil metros quadrados e estacionamento para quatro mil carros. Outros 60 milhões de euros a Juve conseguiu num financiamento, e o restante saiu da venda dos direitos de exploração das lanchonetes e restaurantes.

O impacto do estádio nas finanças da Velha Senhora foi tremendo. E imediato. Na última temporada antes da inauguração, com o time dividindo com o Torino o velho Estádio Olímpico (com capacidade para 28 mil pessoas), o clube vendeu 11,6 mil [ITALIC]"abbonamenti[/ITALIC]" (os carnês que dão direito a ingressos para todos os jogos em casa na temporada). Na primeira em sua casa, foram vendidos 31,8 mil. E agora o clube estabelece o teto de 28 mil (o estádio comporta pouco mais de 41 mil pessoas) por temporada. A média de ocupação da arena por partida é de 93% (38,1 mil pessoas), e a receita anual gerada por bilheteria, publicidade, visitas ao museu e lojas chega perto de 46 milhões de euros (R$ 158,7 milhões).

Com mais dinheiro, o clube pôde comprar jogadores como Pogba, Tevez, Morata e Llorente - Pirlo chegou de graça em 2011 por não ter renovado com o Milan. E estabeleceu uma hegemonia. Para efeito de comparação, nos dois anos que durou a construção do estádio a equipe terminou o campeonato em sétimo lugar. E agora manda com sobras e no dia 6 de junho, em Berlim, pode voltar ao topo da Europa.

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