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Deportivo La Coruña tenta voltar aos bons tempos no futebol espanhol

Equipe da Galícia, que apostava em brasileiros como Djalminha e Mauro Silva, pode retornar à elite neste domingo

João Paulo Carvalho / Especial para o Estado / LA CORUÑA , O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2019 | 04h32

Imagens de Mauro Silva e Djalminha estampam as paredes do quarto do administrador de empresas Rubén Romero Seoane, de 43 anos. As fotos, um pouco borradas, retratam a época mais gloriosa e feliz dos 113 anos de existência do Real Club Deportivo La Coruña. Foi com os brasileiros em campo que o clube conquistou o título do Campeonato Espanhol da temporada de 1999 e 2000.

“Mauro Silva foi o melhor meio-campista do mundo. Era impossível driblá-lo. E o Djalminha... Quando queria jogar, era de outro planeta”, lembra o torcedor espanhol. Após uma temporada de altos e baixos na segunda divisão, o Dépor pode voltar à elite espanhola neste domingo. Depois da vitória em casa por 2 a 0 contra o Mallorca, um empate simples no segundo jogo entre as duas equipes dá a vaga ao La Coruña, que no ano passado amargou seu terceiro rebaixamento nos últimos dez anos.

A relação de amor entre o Dépor e os brasileiros é antiga. Foi com vários deles que o clube espanhol viveu seu período de maior bonança. Entre os principais atletas da história da equipe estão Mauro Silva (1992 a 2005) e Djalminha (1997 a 2004), além dos atacantes Bebeto (1992 a 1996) e Luizão (1997 a 1998), o volante Donato (1993 a 2003) e o meia Rivaldo (1996 a 1997). 

Na década de 1990 e no início dos anos 2000, a equipe foi apelidada de Super Dépor. Eles conquistaram duas Copas do Rei (1994-1995 e 2001-2002), um Campeonato Espanhol (1999-2000) e três Supercopas da Espanha (1995, 2000 e 2002). Além disso, o La Coruña esteve presente na Liga dos Campeões de 2000-2001 a 2004-2005. 

Apesar do prestígio de todos, Mauro Silva, tetracampeão mundial com a seleção em 1994, ainda é o nome de maior destaque na história do clube. Jogador da equipe por 13 anos consecutivos, o ex-atleta virou até nome de rua na cidade em 2018. Mauro é o terceiro jogador que mais vezes vestiu a camisa galega, além de ser um dos únicos três atletas que estiveram nos seis títulos de primeira divisão do clube. No aniversário de 110 anos do La Coruña, o ex-volante ainda foi eleito o maior ídolo da história em votação popular.

Em maio, Mauro Silva foi cotado para concorrer à presidência do clube. Pelo Facebook, ele agradeceu o carinho, mas afirmou que seus compromissos na Federação Paulista de Futebol, onde exerce o cargo de vice-presidente, o impediriam de ser candidato. Procurado pelo Estado e em férias com a família em Nova York (EUA), Mauro Silva não quis comentar sobre o assunto. “Estarei na torcida”, disse rapidamente sobre a possível ascensão do time espanhol.

Outra unanimidade em La Coruña é Djalminha. O meio-campista vestiu a camisa da equipe por sete anos. Um dos lances mais emblemáticos da sua carreira aconteceu contra o Real Madrid, em 2000, pelo Campeonato Espanhol, quando ele deu uma lambreta em quatro marcadores. “Rapaz, não tem como esquecer disso. Eu só lembro da cara do Hierro (zagueiro do Real Madrid)”, brinca Djalminha. Campeão da Copa América de 1997 pela seleção, ele era um dos principais nomes do La Coruña, que, à época, conseguia rivalizar com Barcelona e o próprio Real Madrid. 

“Havia um investimento muito grande em atletas brasileiros. Hoje em dia não há mais. Eu penso que precisam voltar a fazer isso. Os ‘brazucas’ necessitam criar de novo um laço com o Dépor, construir uma história, assim como nós construímos”, diz Djalminha, que todos os anos faz questão de visitar a cidade de La Coruña. “Volto sempre. Tenho carinho enorme pela cidade e pelas pessoas. Fiz amigos. O galego, idioma regional da Galícia, é muito parecido com o português. Por isso, essa relação é tão especial entre a gente. Os brasileiros que passaram pelo Dépor também ajudaram a estreitar esses laços.”

REESTRUTURAÇÃO FINANCEIRA

Depois de vencer o Mallorca por 2 a 0 em casa, com gols de Fede Cartabia e Quique González, o Deportivo La Coruña leva uma imensa vantagem para o segundo jogo. A equipe do técnico José Luis Martí precisa apenas de um empate para ficar com a vaga e subir à primeira divisão.  No primeiro duelo, os bares perto do estádio de Riazor ficaram lotados e quase não havia mesas disponíveis para acompanhar a partida em telões. O Estado conseguiu um cantinho. 

Mesmo com o acesso encaminhado, a temporada não foi das melhores. Na segunda divisão, os galegos ficaram apenas na sexta colocação, com 68 pontos. E agora tenta a última das três vagas na primeira divisão nos playoffs. 

Com muitos problemas financeiros, o Dépor tem conseguido reduzir sua dívida gradativamente. Em 2014, o rombo nos cofres era de 180 milhões de euros – R$ 688 milhões. Hoje, o valor é de 80 milhões euros – R$ 305 milhões. A gestão do ex-presidente Tino Fernández conseguiu estancar um pouco o déficit, apesar do rebaixamento na temporada passada e vários outros problemas internos. Para Alex Centeno, repórter de esportes do jornal La Voz de Galicia, o Dépor está em processo de recuperação econômica. “Nos anos 1990, o clube investiu no mercado brasileiro e trouxe jogadores muito bons para cá. Com a crise financeira, isso dificilmente vai acontecer. Talvez o Dépor precise de um brasileiro no elenco para ter sorte”, diz o repórter.

Rúben Romero vai além. “O Brasil é responsável pelos melhores anos da nossa história. Somos agradecidos aos brasileiros pelas tardes e noites de glória que nos proporcionaram”, diz o administrador de empresas na cidade. “Desde então, comecei a acompanhar o Campeonato Brasileiro. Aqueles jogadores maravilhosos, principalmente os que vieram do Palmeiras, me inspiram. O futebol brasileiro é técnico e vistoso. Ali se permite jogar de forma mais corrida. Não há rigor físico”, diz.

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