Depressão atrapalha carreira de Rafinha no Corinthians

Jogador corintiano confessa que até tentou o suicídio; problemas do passado emperram sua carreira

Marcel Rizzo, Jornal da Tarde

30 de setembro de 2008 | 10h54

Rafinha tem 19 anos. Chegou ao Corinthians em janeiro. Em nove meses, o sonho de defender o time pelo qual sempre torceu se tornou pesadelo. Lesões em seqüência o fizeram atuar apenas 15 minutos, ainda em março, no jogo contra o Fortaleza, pela Copa do Brasil. E o que parecia ser mais um caso de atleta fadado a conviver com contusões prematuras acoberta, na verdade, um problema de base que atinge muitos jogadores: a depressão.Veja também:Corinthians quer superar todos os recordes da Série B Dê seu palpite no Bolão Vip do Limão Em entrevista ao Jornal da Tarde, o jovem meia contou detalhes da sua conturbada infância - que teria gerado todo o ambiente para a depressão. Quando criança, Rafinha conviveu de perto com situações graves, de assassinato a seqüestro, passando ele próprio por duas tentativas de suicídio. O diagnóstico dos especialistas diz que seu estado emocional o atrapalha fisicamente e o torna vulnerável às lesões. "Eu estava recuperado, mas os machucados fizeram a depressão voltar. Tive a doença a primeira vez quando meu irmão foi assassinado", contou Rafinha.Anderson, o irmão que cuidava da mãe Ângela e da irmã Daniele em Três Lagoas (MS), a cidade natal de Rafinha, era seu ídolo. Até hoje, a sua morte não foi solucionada pela polícia, mas deixou marcas na mente e no corpo do jogador. Em suas costas, a tatuagem feita há quatro meses manda mensagem ao irmão onde quer que ele esteja: "Anderson, saudade eterna."Desde janeiro, Rafinha sofreu duas lesões no joelho, sendo necessária a realização de duas artroscopias. Ele também acumulou lesões musculares e até uma virose, sempre quando tentava treinar forte para voltar.Rafinha não toma mais antidepressivos. Agora, freqüenta uma psicóloga em São Bernardo do Campo. "Sei que a tristeza influencia. Mas o que quero é jogar", avisou o jogador.HISTÓRICO Com 5 anos, Rafinha viu seu pai fugir de casa. Era um pai violento. Batia na mulher e nos filhos. Num momento de fúria, tentou esfaquear Ângela. Depois disso, fugiu. Está há 14 anos desaparecido. "Não tenho raiva dele. Nunca tive. Também nunca senti falta", admitiu o jogador.A vida continuou pobre na casa de Rafinha. Bom com a bola nos pés, aos 14 anos ele chamou a atenção de um olheiro quando jogava numa cidade vizinha a Três Lagoas. Acabou no São Paulo.O irmão Anderson, que trabalhava em uma fazenda com um parente, assumiu a casa quando Rafinha, que fazia bicos como vendedor de jornal e peão, parou de trabalhar para tentar a sorte no futebol.Em dezembro de 2004, Rafinha foi passar as férias em Três Lagoas. A partir daí, sua vida virou um inferno. Soube que seu irmão estava jurado de morte na cidade. "Ele tinha algumas brigas, mas não estava envolvido com drogas", lembrou.Nesse período, Rafinha foi seqüestrado pelas pessoas que ameaçavam matar Anderson. "Fiquei seis horas com uma arma na minha cabeça. Consegui fugir e, na corrida, escutei alguns tiros. Não sei se atiraram em mim", revelou. Seis dias depois disso, a tragédia se consumou: o irmão foi assassinado na porta de casa, a tiros. Rafinha entrou em depressão, rescindiu seu vínculo com o São Paulo e voltou para a casa da mãe. "Não tinha vontade de nada. Então tentei duas vezes me matar. Na primeira delas, amarrei uma corda em um apoio na laje de casa e me joguei. Amigos me salvaram. Depois, cortei os punhos. Minha mãe me levou ao hospital e fiquei dois meses internado, tomando remédios. Mal conseguia falar de tão drogado que estava", explicou.A recuperação foi lenta, mas boa. E Rafinha foi convidado a jogar pelo São Bernardo. Ele arrebentou na Copa São Paulo de Juniores de 2007 e foi parar no Cruzeiro. Só que lesões não o deixaram ter chance, mesmo problema que o atinge agora no Corinthians. Apesar de o Corinthians ter adquirido 40% de seus direitos econômicos, ele está emprestado até dezembro. A chance de permanecer em 2009, atualmente, é mínima. "Quero jogar aqui, ter oportunidade. Sei que tenho potencial. Mas se não for possível, não vou desistir desta vez de ser jogador", avisou Rafinha.

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