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Dérbi

Um erro evidente do juiz colocou drama na partida e redimiu o Paulistão

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2017 | 03h00

Corinthians e Palmeiras iam fazer mais um jogo de sua venerável disputa de 100 anos. Como era pelo Campeonato Paulista, ninguém dava nada por ele. Afinal, não há nada mais desvalorizado e insignificante do que o Paulista. O que é esse decadente torneio diante da Libertadores, por exemplo?

E assim começou o jogo de quarta-feira, sob desconfiança de muitos corintianos sobre suas possibilidades diante do poderoso Palmeiras, e uma certa desconfiança também dos palmeirenses, já que o time, pelo menos até agora, não é o mesmo do ano passado. 

Em poucos minutos, viu-se que a coisa não era tão morna como parecia. Havia uma eletricidade no ar, empenho fora do comum do Corinthians e a resposta no mesmo diapasão do Palmeiras, de início surpreendido com a determinação e garra do rival. Mas tudo ia dentro das expectativas desse jogo até que um lance fortuito, sem maior importância, como por mágica, tirou de campo o jogo banal e introduziu o verdadeiro grande clássico centenário. 

Um erro evidente do juiz colocou drama na partida e redimiu o velho Campeonato Paulista, fiel à sua tradição de proporcionar grandes e mitológicos Corinthians x Palmeiras. Foi o juiz que, ao contrário de tê-la arruinado, salvou a partida. O erro involuntário revestiu o jogo de tonalidade épica.

O Corinthians, já lutando valentemente contra adversário superior, fazendo sua parte com heroísmo, foi ainda castigado com uma decisão absurda. Era o que faltava para o clássico virar um David contra Golias. Um time com dez homens lutando desesperadamente, honrosamente, diante de um adversário superior e com onze. 

De quase apáticos, torcedores subitamente passaram a angustiados, desesperados participantes da tragédia. Esqueceu-se que o jogo era de um desmoralizado campeonato regional e começou em campo uma batalha, bem à feição de alguns jogadores do próprio Palmeiras, também contagiados pela eletricidade que o Corinthians colocava no jogo. Não por outra razão, Felipe Melo desfilava pelo campo visivelmente orgulhoso, talvez satisfeito, pela atadura que tinha sido obrigado a colocar na testa para estancar o sangue. 

O erro do juiz deu ao jogo uma proporção estranha. O Palmeiras não sabia bem o que fazer com sua superioridade meramente hipotética, pois não conseguia marcar. O Corinthians sabia perfeitamente o que queria: não sofrer gol. A partir de um certo momento do segundo tempo o Corinthians deu impressão de cansaço, o Palmeiras tomou conta do campo, sentimento de angustia vinha das arquibancadas e o gol parecia que ia acontecer de uma hora para outra. E, novamente, no fim do confronto, a coisa virou como só num Corinthians x Palmeiras. 

Todo na frente, o Palmeiras bate muito mal uma falta para seus zagueiros gigantescos cabecearem, a bola volta num raríssimo contra-ataque corintiano, e gol. No último minuto o estádio veio abaixo com corintianos enlouquecidos, como se tivessem vencido um campeonato, como se fosse Libertadores. No fundo era isso mesmo, um jogo maior que qualquer um dessas competições tão celebradas.

Terminava não uma grande partida, que tecnicamente não foi. Mas uma partida inesquecível. E, ironicamente, do velho e capenga Paulista. Os pequenos moralistas de plantão, arautos do politicamente correto, que não olham o jogo e sua grandeza, ocupados em consultar suas cartilhas de boas maneiras, cansaram de criticar, dedos em riste. O erro do juiz, deslealdade, falta de fair play, etc. Só faltou consulta ao Ministério Público e sugestão de ação popular. 

Eles não sabem o que é um Corinthians x Palmeiras. É pena, porque tiveram diante deles quarta-feira, com todos os ingredientes indispensáveis, um autêntico dérbi.

 

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