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Dérbi mágico

Há quem considere lugar-comum afirmar que o dérbi é diferente. Provavelmente aquele que pensa dessa forma não torce nem para Palmeiras nem para Corinthians. Caso contrário, não ousaria sequer pensar em tal heresia.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2016 | 03h00

O clássico entre os dois times paulistanos mais antigos embica para o centenário, marcado para 2017, e não perde o encanto. Jamais. Continua a ter o poder de revigorar o lado anêmico ou embalar o já animado. Fato: o vencedor sai fortalecido.

A festa desta vez alojou-se na casa verde, tão necessitada de empurrão para mandar crise para escanteio. O Palmeiras viveu período encalacrado, com quatro surras em seguida, e deu uma respirada diante do Rio Claro. Mas precisava de vitória de afirmação, para mostrar que não é fogo nem palha, saco de pancada ou embuste.

O melhor teste? Bater o Corinthians. E conseguiu, com mérito, autoridade, organização e alma. Os jogadores de Cuca entrarem em campo conscientes do que deveriam fazer – e desempenharam com vibração e suor. Entenderam a importância de passar por adversário tradicional e melhor time até agora do Campeonato Paulista.

A vitória veio na raça, e com componentes de emoção, para honrar a história e o sagrado palco do Pacaembu. Num momento, a derrota esmurrou a porta palestrina, no pênalti cometido por Thiago Martins sobre Giovanni Augusto, e que Lucca se apresentou para bater. Cobrou, para voo espetacular de Fernando Prass. Pouco depois, quase na sequência, falta para o Palmeiras e bola que vai parar na cabeça de Dudu, o gigante de 1m65. Ele sobe mais do que Cássio, e testa para o gol, único, decisivo, esfuziante. Tão desconcertante que os corintianos nem reclamaram do terço de corpo do palmeirense à frente, na hora em que recebeu o passe. Nem perceberam o impedimento.

Os dois lances emblemáticos sintetizaram a partida: o Palmeiras entrou disposto a encarar o desafio como a passagem para a guinada na temporada. O Corinthians, completo e inteiro, com Elias de volta (saiu no segundo tempo) não calçou salto alto, tampouco escondeu certo relaxamento. No entanto, se surpreendeu com marcação aplicada, inteligente, sufocante que tomou do início ao fim. Fora a penalidade e um ou outro chute esporádico, a armada de Tite não incomodou Prass. 

Cuca esmerou-se na composição estratégica, sobretudo no meio-campo. Gabriel desdobrou-se na cobertura dos laterais Jean e Egídio, que foram com regularidade para o ataque. Robinho na direita, Arouca no centro e Zé Roberto na esquerda impediram veleidade criativa do quarteto de meio corintiano. Até Alecsandro e o aniversariante Gabriel Jesus vedavam espaços. A alternativa alvinegra foi a de rodar pra cá e pra lá, a engrossar estatística de posse de bola – que lhe foi favorável, porém estéril. Números enganam, quando lidos sem encaixe no contexto.

O Palmeiras arriscou mais, chegou diversas vezes à área de Cássio, de novo com ótima atuação. Enfim, seguiu o roteiro do ressurgimento, depois de ficar mais pra baixo do que reservas de pré-sal. O toque de classe veio com a entrada de Dudu no lugar de Robinho, com o segundo tempo a correr. O baixinho mudou a dinâmica do ataque, desconcertou o Corinthians, fez o gol, sentiu contusão e perambulou pelo gramado a fazer número e para dividir a honra de herói com Prass, como na noite da conquista da Copa do Brasil.

A derrota não muda a vida do Corinthians. Porém, levanta o astral do Palmeiras para o desafio de quarta-feira com o Rosario, pela Libertadores. Dá para reagir, agora ele sabe.

PS. Taí a interpretação racional do jogo. Existe outra, espiritual. No pênalti, quem pulou com Prass foi Sandro Vaia, que também ajudou Dudu a cabecear para o gol. Sandro, ex-diretor inesquecível do Grupo Estado, partiu na noite de sábado, véspera do dérbi. Chegou lá em cima e inspirou o Palestra, de quem era tão apaixonado quanto pelo Jornalismo, pelo Brasil e pela Itália natal. Esta crônica é em memória dele.

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