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Antero Greco
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Derrapada na Ponte

Lembra do Palmeiras vibrante da estreia no Brasileiro, uma semana atrás, nos 4 a 0 sobre o Atlético-PR? Nem sombra dele apareceu ontem, em Campinas. Na derrota por 2 a 1 para a Ponte o que se viu foi time insosso, aparvalhado, sem atrevimento, engolido por pressão eficiente do adversário. Sobraram erros de marcação e criação, faltou inteligência. Cuca tem elenco farto à disposição e não soube fazer uso dele, na segunda rodada. Preocupa.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2016 | 07h01

Presunção e água benta. No meio da semana, Diego Aguirre pegou o boné no Atlético-MG. O uruguaio caiu horas depois da vitória inútil sobre o São Paulo em BH; os 2 a 1 foram insuficientes para levar a ex-equipe dele pra semifinal da Libertadores e interromperam parceria que durou menos de seis meses. Até aí, nada de extraordinário, pois técnicos perdem emprego a toda hora. Chamou atenção, na entrevista saia-justa concedida ao lado do presidente do clube, uma declaração de Aguirre. “Não consegui o objetivo para o qual fui contratado: a conquista da Libertadores.” Frase corriqueira, protocolar. Um dos tantos clichês despejados em momentos de despedida. Mas nela estão embutidos pretensão e conceito distorcido do que deveria ser trabalho profícuo e duradouro.

Aguirre não foi chamado para reestruturar o Galo, tampouco para desenvolver projeto de longo prazo, como seria natural. Não foi procurado para colocar em prática novos conceitos estratégicos ou revelar talentos. Nada. A contratação se deu com um alvo: outra taça continental, para repetir o feito, primeiro e por ora único, de 2013. Qualquer coisa a menos representaria fracasso e, por extensão, o rompimento.

Clubes de ponta, como qualquer empresa, precisam de metas ousadas, no mínimo para estimular a corporação a não marcar passo. Não há mal nisso. Para tanto, são necessários planejamento, qualidade do pessoal, investimento, treinamento. Tempo.

No futebol, sobram imediatismo e presunção, que, assim como água benta, cada qual toma quanto quiser. Com a maior naturalidade, a vaga no torneio continental pressupõe chegar à final e levantar o troféu. Mal se classificou, um time se vê em Tóquio e com o mundial. Criam-se castelos no ar. Como se não existissem outros concorrentes, todos com desejo semelhante. Pela lógica estrábica, revelada por Aguirre, fora a campeã, as 31 equipes restantes deveriam dispensar os respectivos professores...

A empáfia não para aí. Para lamber feridas e tocar a vida, dirigentes, torcedores e mídia se aferram a outro discurso arrogante, na base do “agora é obrigação ganhar o Brasileiro”, por exemplo. Sem autocrítica, do nada, sem avaliar por que sobreveio a eliminação no campeonato anterior, se cria nova ilusão.

O roteiro é surrado: sai um técnico, vem outro, com a conversa mole de ter aceitado o desafio, porque o projeto é tentador, o grupo é bom, talvez precise de reforços, etc. O cartola finge que, agora, a coisa anda e o torcedor se ilude, até a nova crise e o recomeço do zero. Se bem que, às vezes, a bagunça até dá certo e vira “modelo de gestão”.

Na marra. Os jogadores do Corinthians viajaram para a Bahia, onde enfrentam o Vitória, devidamente alertados pela maior organizada do clube de que têm responsabilidade enorme na Série A. Grupo seleto de porta-vozes da torcida fez algumas reuniões com executivos e atletas, e lhes expôs anseios e preocupações.

O papo “motivacional” é uma variação do “é obrigação ganhar o campeonato”; como se tal pressão desse resultado. Tudo feito com a anuência da direção e à revelia do que pensam os boleiros. Uma forma de transferir para a rapaziada o peso por eventual fiasco, sem levar em conta as mudanças ocorridas no elenco, as transformações na escalação, a queda de qualidade, e a sombra de novo desmanche no período de abertura do mercado europeu. É muito fariseu em cena, para usar expressão do querido Bom Retiro, não por acaso berço do Corinthians.

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