Derrota do Brasil na Copa de 1950 não foi zebra, diz jornalista uruguaio

Atílio Garrido, autor do livro 'Maracanazo - A História Secreta', conta detalhes da partida

Diego Salgado, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2014 | 07h00

SÃO PAULO - A escapada do ponta Ghiggia pela lado direito do gramado do novíssimo Maracanã no dia 16 de julho de 1950 não foi por acaso. O gol marcado pelo eterno carrasco do Brasil e o resultado mais doloroso da história da seleção brasileira viraram realidade após uma série de fatores. Para o jornalista uruguaio Atílio Garrido, autor do livro "Maracanazo - A História Secreta", a  derrota brasileira na Copa de 1950 passa pela pressão política no País à época, além da própria superioridade do Uruguai dentro de campo em alguns momentos.

"Muita gente não conta a realidade, da preparação ruim da seleção brasileira, dos dirigentes que mandavam no time. Era preciso derrubar essa lenda e esse mito", disse Garrido em entrevista exclusiva ao Estado.

De acordo com o jornalista, a década de 1940 foi marcada por inúmeros confrontos entre Brasil e Uruguai. O retrospecto, contando a partida decisiva do  Mundial de 1950, é bem equilibrado: 18 partidas, com oito vitórias brasileiras e seis uruguaias. Além disso, até a Copa, a seleção do Brasil havia conquistado apenas três edições da Copa América (1919, 1922 e 1949). O Uruguai, por sua vez, tinha oito títulos continentais, além de um bicampeonato olímpico (1924 e 1928) e um mundial (1930).

A 72 dias do Maracanazo, o Uruguai bateu o Brasil por 4 a 3 no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Pelo lado uruguaio, oito jogadores estavam no Maracanã no  dia 16 de julho. Pela seleção brasileira, Barbosa, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. "A defesa do Uruguai conhecia os atacantes do Brasil", disse Garrido.

O jogo do Pacaembu era válido pela Copa Rio Branco, torneio disputado entre as duas equipes em cinco oportunidades durante a década de 1940. Após a derrota na primeira partida, o Brasil venceu os uruguaios duas vezes: 3 a 2, no dia 14 de maio, e 1 a 0, no dia 17, sempre em São Januário.

ENTUSIASMO

"Brasileiros, mostrem daqui a alguns minutos que serão os campeões do mundo." Foram essas as palavras do prefeito do Rio de Janeiro à época, o General Ângelo Mendes de Moraes, que já havia "cobrado" os jogadores do Brasil ao dizer que o governo havia construído o Maracanã. O título da Copa era uma obrigação.

A campanha do Brasil na Copa contribuiu para isso. Na primeira fase, o time bateu México (4 a 0) e Iugoslávia (2 a 0), além de empatar por 2 a 2 com a Suíça. No  quadrangular final, massacres contra Suécia (7 a 1) e Espanha (6 a 1). Já o Uruguai precisou de apenas um jogo para chegar à fase decisiva. Depois de fazer 8  a 0 na Bolívia, o time do técnico Juan Lopez arrancou pontos nos minutos finais dos jogos. Contra o espanhóis, perdia por 2 a 1 até os 28 minutos do segundo tempo, quando Obdulio Varela empatou. Diante dos suecos, virou a partida a 13 minutos do fim.

Os fatos fizeram com que a empolgação tomasse contra da equipe de Flávio Costa. Após a goleada sobre a Espanha, o grupo brasileiro deixou a Casa dos Arcos, no  bairro de Joá, e passou a se concentrar em São Januário a partir do dia 14 de julho, sexta-feira. A mudança só interessou aos políticos, ávidos por uma boa imagem a menos de 90 dias das eleições presidencial. A imprensa, por sua vez, também já declarava o Brasil campeão mundial.

POLÍTICA

Em agosto de 1946, Mendes de Moraes foi nomeado prefeito do Rio pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, filiado ao PSD (Partido Social Democrático),  eleito após as eleições diretas de dezembro de 1945. A ideia de Dutra era manter o partido no poder e, para isso, lançou a candidatura do mineiro Cristiano Machado. Segundo Garrido, os três foram a São Januário ver os jogadores na véspera da decisão. "Os políticos tomaram conta da concentração do Brasil", afirmou.

A ideia de fortalecer o PSB com a vitória do Brasil no Mundial virou um pesadelo após a derrota. O busto de Mendes de Moraes colocado à frente da entrada principal do Maracanã foi derrubado. Anos depois, o prefeito deixou também de dar nome ao estádio, chamado desde a década de 1960 de Jornalista Mário Filho. Nas urnas, mais uma derrota. No dia 3 de outubro de 1950, quase 49% dos eleitores brasileiros recolocaram Getúlio Vargas no poder, derrotando Eduardo Gomes da UDN (União Democrática Nacional) e Cristiano Machado.

Em 1958, oito anos após o Maracanazo, o Brasil sagrou-se enfim campeão do mundo. Sem o clima de "já ganhou", a seleção bateu a Suécia por 5 a 2 na final. "Ninguém falava que o Brasil já tinha vencido. Até a imprensa tomou cuidado", disse Garrido.

"Maracanazo - A História Secreta", lançado no último dia 12, deu origem ao filme "Maracanã", documentário lançado em março de 2014. No Brasil, o filme, que atraiu milhares de espectadores ao estádio Centenário, em Montevidéu, será exibido durante o Cinefoot, a partir desta semana.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.