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Descanso?

Mal acabam Libertadores e Brasileiro, já começam os estaduais; seria bom que houvesse férias reais no futebol

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2019 | 04h00

O futebol não para. Tudo o mais vai gradativamente perdendo ritmo neste mês de dezembro. O transito vai ficando cada vez mais lento, se isso é possível. As pessoas trabalham mais devagar, sente-se no ar alguma coisa de feriado. A temporada de futebol deveria seguir o mesmo rumo das coisas, mas futebol é diferente. Parece que não pode parar. Mal a Libertadores acabou, mal terminou o Brasileirão e tudo já vai recomeçar. Vamos ter uma ou duas semanas de intervalo e logo, ainda em janeiro, começa o Paulista. A torcida do Flamengo nem recolheu as bandeiras das comemorações e já tem que se preocupar com o possível jogo com o Liverpool.

Para esses não há folga nem de poucos dias. Tudo é uma longa competição, que não tem começo nem fim. E, no entanto, quem precisaria mesmo de descanso seria o torcedor. Se houvesse uma verdadeira parada, seria muito benéfica também para o próprio futebol. Uma larga folga suficiente para que as torcidas realmente sentissem falta de seus times, suficiente para recuperar as forças e se preparar para outra temporada.

Mas os donos do futebol não pensam assim, nem seus departamentos financeiros. É preciso faturar sem interrupção, enquanto isso é possível. Retirar da torcida tudo o que ela pode dar, não importa como. Infelizmente, uma coisa que o negócio do futebol pouco leva em conta é o delicado mecanismo das emoções dos torcedores. Muita coisa é produto do sonho, da quimera e de hipóteses. E essas coisas não cabem em estatísticas e gráficos.

O que quero dizer com isso é que o torcedor necessita de um tempo no qual sua imaginação trabalha e se põe a serviço de sua equipe. Na folga tudo é permitido e o torcedor pode participar secretamente da escalação do time ideal que ele mesmo arquiteta. Que o torcedor tenha tempo de fazer suas próprias indicações de reforços, mesmo que elas sejam irrealizáveis e só ele saiba que um dia pensou que seriam possíveis. Isso tudo leva tempo, durante o qual não haja nenhum jogo, nada, nenhuma mesa redonda ou quadrada.

Todos deveriam sair de férias, ao menos para verificar quem é realmente necessário. Nesses dias ainda estamos no rescaldo dos incêndios que abalaram a temporada que passou. Tanto os que ganharam quanto os que perderam deveriam ter tempo para se redimensionar. Esquecendo do Flamengo, que continua em atividade normal como se estivesse em meio da temporada, quem, entre os torcedores do Cruzeiro, conseguiu sair do momento traumático que viveu?

Muita água vai correr ainda debaixo da ponte até que os cruzeirenses acordem inteiramente do pesadelo. E, no entanto, para remediar a queda, dirigentes se põem a dar soluções rápidas, tentando demonstrar ação. Não levam em conta o tempo, que é o que vai esfriar os ânimos e acalmar os aflitos. Equipes que tiveram um ano aquém de suas possibilidades não querem perder mais tempo e agem, durante o descanso trabalham de maneira furiosa.

O caso do Palmeiras, por exemplo, e as negociações com o treinador que acaba de deixar o Santos. É um recado mostrando eficiência e esperteza: “Aqui não tem férias, estamos trabalhando”. É compreensível que, num esporte que se tornou absurdamente competitivo, mostras de perda de tempo não sejam exatamente elogiáveis. Em compensação, contratações feitas com rapidez imprudente resultam não em solução e alegria, mas em problemas, às vezes, insolúveis. Estão aí escancarados os péssimos negócios feitos por quem espera, o mais rapidamente possível, agradar patrocinadores e torcida. 

A pausa e a espera são, muitas vezes, sábias. O próprio Flamengo é um exemplo disso. Levou muito tempo com derrotas inevitáveis para, aos poucos, chegar onde está. Isso deveria ser observado por todos que gostam de trabalhar nas férias. No fim das competições é que serão avaliadas as providencias tomadas no começo delas. 

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