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Ugo Giorgetti
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Desenganos e enganos

Algum tempo atrás fiz um documentário para uma emissora de televisão no qual precisava do depoimento de um antigo craque, famoso, que eu tinha admirado e visto jogar inúmeras vezes. Depois de muito procurar, finalmente alguém sugeriu que tentasse uma vila nas proximidades da Lapa. E lá fui eu para a tal vila, de pequenas, modestas e antiquíssimas casas geminadas.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2015 | 03h00

Ninguém respondeu aos toques de campainha, mas a vizinha da casa da frente me pareceu simpática e a ela perguntei pelo ex-craque. Ela não sabia de craque algum morando por ali. Mas começamos a conversar e ela me contou a história da casa da frente.

No começo chegou um casal com uma criança. Gente estranha. Não eram vistos durante o dia. Mas à noite, em compensação, eram ouvidos: brigavam pra valer. Um dia as brigas cessaram, e a mulher e a criança tinham ido embora.

O homem, agora só, seguiu com seu comportamento estranho. Continuava invisível durante o dia, mas ao cair da tarde saía, só voltando muito tarde da noite, cambaleando. Tinha muita dificuldade para abrir a porta e desparecer no interior da casa. Raramente ela o via durante o dia, sempre dando uns passos hesitantes pelo jardim mal tratado, como se não soubesse aonde ir ou o que fazer. Depois saía e voltava bêbado. Isso durou anos. Logo ninguém mais prestava atenção nele; a vila era de gente que trabalhava duro e saía cedo. Ninguém tinha tempo pra vida alheia. Acostumaram-se com sua presença incerta e já o tratavam como um caso perdido para a bebida. Nada a fazer. Perguntei quando o casal e a criança tinham chegado na casa e soube que a data correspondia a uns três anos após o encerramento da carreira do jogador que eu procurava. Mas daí o relato da vizinha tomou outro rumo. Um belo dia o morador da frente começou a se mostrar no período diurno, e – surpresa – sóbrio!

Depois soube-se que tinha arranjado emprego numa Lotérica na Pompeia, propriedade de alguém do Palmeiras. A vila se acostumou sem perguntas à vida nova do antigo bêbado. E ele continuou trabalhando, silencioso. Tempos depois começou a aparecer na casa a Rosinha, colega da Lotérica.

Menina esperta! Evangélica, exigiu logo casamento, e acabou atendida. Ele continua na Lotérica, mas ela progrediu e hoje é sócia de um instituto de beleza. Nunca se ouviu uma briga entre os dois. Saem pouco, ela vai para o templo e ele fica em casa. Quase ninguém os visita. Gente simples.

Desculpe, mas não acredito que ele tenha sido um craque famoso como o senhor diz, falou a vizinha. Depois que ela entrou fiquei um pouco por ali e de repente vi o homem chegando. Era ele, o craque, sem dúvida. Só pelo andar o reconheci. Marinheiros e jogadores de futebol andam de um jeito inconfundível. É a única coisa da carreira que lhes fica para sempre.

Quando passou por mim chamei seu nome. Não respondeu, chamei de novo. Ele atravessou o modesto jardim e já na porta se virou: “Meu nome não é esse. Não conheço essa pessoa. Você deve estar enganado.” E fechou a porta.

Não insisti, e uma coisa só me intrigava nessa história: como é possível que ninguém o tivesse reconhecido, quando chegou na vila depois de só três anos da carreira encerrada? Um craque tão famoso, seleção brasileira, clubes grandes, parecia incrível. Esse episódio nunca saiu da minha cabeça e voltou à lembrança um dia desses.

Assistia ao “Cartão Verde”, na TV Cultura, quando Silas, que jogou no São Paulo, na Itália, Portugal, Japão, duas Copas do Mundo, campeão argentino pelo San Lorenzo, falou da fugacidade da fama: “Dois anos depois que eu tinha parado, só dois anos depois, eu estava no aeroporto e um cara veio pro meu lado sorrindo. Também sorri esperando o cumprimento do torcedor. Daí ele olhou bem pra mim e disse: ‘você é o Alexandre Frota, não é?’”

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