Desperdício histórico

Notícias de problemas financeiros em qualquer atividade preocupam, pois em geral desembocam em desemprego, angústia e baixo-astral. Para os apaixonados por futebol dói saber quando clubes têm dificuldades para honrar compromissos - a situação representa perda de competitividade, perigo de rebaixamento ou, em exemplos extremos, até de desaparecimento.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2015 | 03h00

Há casos que provocam pena, aflição, além de inconformismo e revolta. O Santos se encaixa nesse perfil. Inadmissível que a instituição que presenteou o mundo com Pelé, apenas o Atleta do Século 20 e Rei do Futebol, conviva com insuficiência de fundos. Frustrante ver agremiação que teve Robinho e Neymar, as duas maiores revelações brasileiras nos anos 2000, de pires na mão e sem caixa para pagar salários, prêmios e benefícios de atletas e demais funcionários.

A referência a Pelé não tem a ver com surto saudosista; não soarão aqui violinos para evocar o passado de glórias. Não é conversa de museu, como muita gente costuma alegar. Ao contrário, serve como ponto de partida para entender a indignação que desperta a penúria atual e o desprezo às chances de ser um dos poderosos do mundo. 

Há seis décadas as incontáveis administrações repetem, com ligeiras variações, erros semelhantes. Desde a metade dos anos 50, quando surgiu a maior equipe do futebol nacional de todos os tempos, os cartolas santistas não sabem aproveitar a fama em favor do clube. A expansão bateu à porta da Vila Belmiro, a internacionalização era o caminho mais natural, porém a marca jamais foi explorada à altura. O destino ainda ofereceu oportunidades com os dois ídolos deste milênio - nem assim se deu o salto para a modernidade.

O Santos continua a ser gerido como time de província, satisfeito com esporádicos títulos estaduais, ou uma outra conquista nacional. A Libertadores de 2011 foi outra dádiva da natureza que se desfez com a surra de 4 a 0 pro Barça na decisão do Mundial daquele ano.

O Santos esteve no mínimo à altura de Milan, Benfica, Real Madrid, Internazionale e outros gigantes do futebol mundial. Com uma diferença notável: enquanto os europeus mantiveram a vocação para crescimento e hoje são multinacionais da bola, com negócios e admiradores espalhados pelos continentes, o glorioso alvinegro toca rotina tacanha, à espera de algum presidente endinheirado ou do surgimento de joias nas categorias de base. Elas até despontam e... o deixam em pânico.

Robinho foi o chamariz no início do novo milênio. Era uma febre e tanto, pelo jeito extrovertido, estilo, eficiência e identidade com o público. Houve um boom de jovens torcedores do Peixe. Qual o desdobramento? Ida conflituosa para o Real Madrid em 2005 - sem grande lucro. Robinho teve retornos breves, de passagem, em 2010 e recentemente. Para ir embora de novo.

Depois, desabrochou Neymar, fenômeno de carisma e bola. Outra avalanche de admiradores, os olhos do mundo voltados para o Santos, títulos e perspectiva de crescimento. Como terminou a história? O moço foi para o Barcelona numa transação que rendeu trocados (evaporados) para o Santos - se comparados aos valores totais da transação - e briga na Justiça. Agora, o pai do jogador diz que o clube deve ao filho. 

Não bastasse a humilhação de ter levado passa-moleque na saída de Neymar, mais uma vez há pagamentos em atraso. Dívida admitida sem subterfúgios por Ricardo Oliveira, porta-voz do elenco, com a ressalva de que “há confiança” etc. e tal. Coincidência ou não, o Santos está na zona de rebaixamento do Brasileiro.

Os astros se afeiçoaram ao Santos, que nunca se deu conta disso. Daí viver realidade mesquinha. Clássico desperdício histórico.

Ordem unida. Desnecessário dizer que respeito à bandeira e ao Hino Nacional são atitudes louváveis e dignas. Mas soa um tanto deslocado atletas brasileiros baterem continência no pódio em Toronto, onde se disputa torneio civil e não Jogos Militares. 

Tudo o que sabemos sobre:
Antero Greco

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.