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Dificuldades do futebol feminino afastam novas treinadoras

Técnica do São José, Emily Lima conta experiências na profissão

Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2015 | 11h31

Em 2003, a árbitra Silvia Regina de Oliveira se tornou a primeira mulher a apitar uma partida do Brasileirão. Mesmo não sendo pioneira da função no Brasil, ela quebrou tabu e abriu portas na arbitragem. Hoje, é comum as mulheres estarem em uma função do trio de arbitragem, principalmente como bandeiras. Elas também estão presentes em outras áreas do futebol como nutrição, fisiologia, jornalismo... mas onde estão as técnicas?

A treinadora do São José, campeão paulista de 2015, explica porque é tão raro encontrar companheiras de profissão: "Só trabalha no futebol feminino quem ama o esporte", opina Emily Lima. "Estou no futebol feminino há 25 anos e não existiu um só instante em que a gente não tenha tido dificuldades. Seja para montar uma equipe, conseguir patrocínio e também mostrar para os presidentes dos clubes que eu, como mulher, posso fazer um bom trabalho no vestiário."

Ex-jogadora de futebol, Emily começou como treinadora por acaso, já que queria trabalhar em uma função de gestão esportiva. Acabou recebendo convite para virar auxiliar no time feminino da Portuguesa, em 2010. "Eu queria ser supervisora para correr atrás de patrocinadores, para dar para essas meninas uma boa infraestrutura, uma boa alimentação, coisas que não tive em alguns clubes. Essa era minha maior preocupação. Mas acabou que eu poderia fazer tudo isso e ainda treiná-las." 

Para assumir a seleção feminina Sub-17, tornando-se a primeira mulher a exercer tal cargo em qualquer categoria da CBF, Emily teve de enfrentar a desconfiança de Marco Polo Del Nero, vice-presidente à época - atual presidente. Para Marco Aurélio Cunha, diretor de futebol feminino da entidade, a falta de "contingente" na função acaba sendo resultado da época da Ditadura Militar, onde as mulheres não podiam praticar "lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol", segundo o decreto-lei nº 3.199, em seu art. 54, de 1941.

"A pouca profissionalização no Brasil também acabou afastando algumas atletas. A Sissi é um exemplo. Ela tinha muito contato nos Estados Unidos, teve oportunidade de se aperfeiçoar e hoje faz um grande trabalho. Isso atrapalha, principalmente porque o futebol é um ambiente formador. É uma função que se aprende na prática". Citada por Marco Aurélio, Sissi foi uma das maiores jogadoras da seleção brasileira na década de 1990 e atua como treinadora. 

A baixa remuneração em todas as áreas do futebol feminino do País também se torna outro fator para afastar interessadas na modalidade. "Ainda não virou uma profissão em relação ao retorno financeiro, assim como ocorre com muitos esportes amadores. O atleta acaba tento de exercer outra profissão para se manter."

Para ajudar no desenvolvimento do futebol feminino no Brasil, a Fifa destinou 15% dos R$ 100 milhões que deixou como parte do "legado da Copa" à modalidade. A CBF também quer ajudar as mulheres com cursos de treinador gratuitos. "Vamos abrir vagas sem custo para capacitação de quem sempre esteve envolvido com o futebol feminino", confirma Marco Aurélio.

ELES E ELA

O nome de Corinne Diacre ganhou muita repercussão na imprensa internacional em 2014, após a treinadora assumir o comando da equipe masculina do Clermont, na segunda divisão francesa. Ela é a primeira mulher a assumir um clube masculino de elite. Mesmo sem conseguir o acesso nesta temporada, Diacre teve seu contrato renovado até 2018. 

Aqui no Brasil também existe uma mulher treinando uma equipe masculina. Nilmara Alves está a frente do Manthiqueira, da quarta divisão paulista, desde 2012. Consolidada no futebol feminino, Emily Lima também pensa em seguir os passos de Nilmara e Diacre: 'Eu também não tenho pressa para que isso aconteça. Mas é um foco que tenho, é algo que almejo. Mesmo que seja com a base, mas também não é para agora'.

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