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Dignidade

O que importa foi ter visto ressurgir a mística do Brasil

Ugo Giorgetti*, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 04h00

Copa do Mundo não é um torneio justo. Nunca foi, mas só admitimos isso quando perdemos. Não faz mal, ainda assim é um reconhecimento. Nesse Mundial, ainda vão continuar equipes medíocres e ficar de fora equipes poderosas. É um torneio que apresenta o que há de pior e de melhor nos mata-mata.

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O pior é, sem dúvida, entregar à sorte e aos pênaltis o destino de uma partida. O Brasil é uma equipe que acabou ficando de fora. O importante, porém, é saber como ficamos de fora. Com choro, ataques histéricos, tomando baile, todos perdidos em campo sem nenhuma reação? Desta vez, não.

A equipe foi diferente e foi diferente quando devia ser diferente: durante os quarenta e cinco minutos finais do jogo contra a Bélgica. O primeiro tempo parecia uma reprise do que estávamos já nos acostumando a ver do Brasil. O time perdido em campo e o adversário jogando à vontade, sem medo e sem temor.

Alguma coisa, contudo, aconteceu no vestiário – ou talvez já dentro do campo – na volta para o segundo tempo. Talvez não tivesse nada a ver com instruções geniais e mudanças de táticas surpreendentes e mirabolantes. Não, acho que não foi isso. Acho que se abateu sobre os jogadores a sensação de que aquilo não podia continuar. Aquele verdadeiro esculacho com uma seleção campeã do mundo diversas vezes tinha de ter um fim.

Como desconhecer uma seleção dessas, uma camisa dessas? Por milagre, pode ser com a presença invisível de craques vivos e mortos do passado, o fato é que bateu nessa equipe um espírito de Brasil. Não patriótico, não de ficar cantando o hino como um bando de possessos, mas simplesmente virar uma equipe brasileira. E quem teve medo foram os belgas.

 

Não importa se a bola não entrou, se o último chute foi errado, se o goleiro belga estava, como se dizia antigamente, em tarde inspirada. Não importa nada disso. Importa ter visto a Bélgica recolhida em seu campo e dando chutões para todo o lado. Importa ver que o toque de bola despreocupado da Bélgica acabou e se transformou em temor, para não dizer em desespero, muitas vezes. Importa ter visto ressurgir a mística do Brasil.

Depois do jogo, a entrevista do técnico belga, ainda dentro do campo, era o reconhecimento de que o futebol brasileiro, ainda que eliminado, tinha cumprido sua missão. Quase com lágrimas nos olhos, o treinador espanhol da Bélgica, time que não perde há mais de 20 partidas, mal podia falar e parecia não crer no que lhe tinha acontecido ali.

Foi bom ter visto isso, foi bom ver que o técnico da Bélgica, e talvez muitos jogadores de sua equipe, tinham passado uma noite bem mal dormida pensando que iam enfrentar o Brasil.

Depois da última Copa do Mundo, parece que tínhamos descido até o fundo do poço. A moda era ridicularizar jogadores e treinadores brasileiros, principalmente os que ainda tinham a desventura de jogar no Brasil. A última coisa a se prestar atenção era o Campeonato Brasileiro. Parte disso pode ter acabado no jogo de sexta- feira. Curiosamente, será o efeito não de uma vitória, mas de uma derrota, uma digna derrota.

 

*CINEASTA E COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’

 

 

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