Dinelson quer virar o xodó da Fiel

Ser campeão, conquistar a independência financeira ou defender a seleção brasileira. Normalmente são esses os objetivos citados pelos jogadores quando chegam a um grande clube. Porém, no caso do meia Dinelson, um dos 12 atletas contratados pelo Corinthians para a temporada 2004, o desejo é, no mínimo, inusitado. "Olha, eu quero mesmo é ser o novo xodó da Fiel", afirma, convicto, pretensioso e sonhador.Em Extrema, cidade no sul de Minas onde a equipe realiza a pré-temporada, Dinelson ainda exibe características marcantes de sua personalidade. É tímido, um tanto quanto retraído e pouco fala durante os treinos. É verdade que tais peculiaridades estão reforçadas pelo fato de o grupo estar junto há apenas três dias, tempo insuficiente para que todos se sintam em casa.Mas tais fatos só fazem crescer a curiosidade. Afinal de contas, por que esse sonho de ser "xodó". A resposta é simples: Dinelson conviveu durante um ano com Neto, que durante o ano passado trabalhou como diretor de futebol do Guarani. "Ele (Neto) é quem começou com isso. Foi o primeiro xodó da Fiel e vai ser conhecido dessa forma, creio eu, que para sempre", explicou. "Quem sabe eu posso ocupar o lugar dele."Aliás, Neto é uma espécie de ídolo, guru do jovem atleta: "Olha, tenho ele como um paizão mesmo!". Dinelson se entusiasma quando fala sobre a relação que manteve com Neto. Relembra a época em que o então dirigente do Guarani o impedia de dar entrevistas mais de uma vez por semana. "Foi bom. Ele percebeu que eu ainda não estava preparado para aquele assédio todo e me protegeu. Não quis me expor", contou. "Desse jeito aprendi a lidar com tudo isso aos poucos."Uma passagem foi curiosa. Ao ouvir e ver as primeiras entrevistas do pupilo, Neto percebeu que erros de português eram cometidos com freqüência. Então, não teve dúvida. "Ele aparecia com vários livros e falava ´Olha aí garoto, lê isso aí e vê se melhora um pouco´", disse Dinelson. "E isso me ajudou muito a adquirir o hábito pela leitura, que antes era restrito à Bíblia (ele é evangélico e assíduo freqüentador da Igreja Batista).?A manifestação do desejo pessoal, diz o meia, não deve ser confundida. O novo contratado fez questão de destacar que não tem intenção nenhuma de fazer política de bom relacionamento com a torcida. "Acho que não é preciso tudo isso. O negócio é jogar bem, se dedicar. Desse jeito conquistamos os torcedores", ensinou.Ciúmes - Mal chegou ao clube, Dinelson já percebeu as dimensões exageradas que determinados fatos ganham no Corinthians. Por ter apenas 17 anos, sua contratação provocou desentendimentos entre diretores. Os descontentes são aqueles que, de alguma forma, estão ligados às divisões de base. Alegam que o clube investe na formação de atletas e, dessa forma, deveria priorizar a utilização daqueles que já se encontram em Itaquera, local de alojamento dos jovens talentos.Como não tem nada a ver com o desentendimento, Dinelson procura se manter longe da polêmica, embora não se recuse a comentá-la. "Até entenderia essa reação caso eu estivesse nas divisões de base do Guarani. Mas já vinha jogando a mais de ano no profissional. Mostrei meu trabalho e fui contratado como qualquer outro", explicou. "Essa ciumeira vai sempre existir, em qualquer lugar. Mas o que posso fazer. Fico na minha e não estou nem aí para o que está acontecendo. Não me preocupa de jeito nenhum."O mesmo comportamento vale para os dirigentes do Guarani que ficaram aborrecidos com sua saída. "O que posso fazer? Eles atrasaram meu salário mais de três meses e durante mais de um ano que estive no clube nunca depositaram o Fundo de Garantia. Entrei na Justiça e saí. Se não fosse para o Corinthians, iria para outro clube", garantiu. Santos, Grêmio e Flamengo também fizeram propostas para ter o futebol desse baiano de Anagé (cerca de 800 quilômetros de Salvador). "Nem vi as outras propostas. Meu procurados disse que o Corinthians era a melhor e aceitei."

Agencia Estado,

16 de janeiro de 2004 | 09h22

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.