Gilberto Almeida/Estadão - 2011
Gilberto Almeida/Estadão - 2011

Dinheiro de amistosos da seleção brasileira ia para Andorra

Empresa de Sandro Rosell recebia parte dos cachês em conta no paraíso fiscal

JAMIL CHADE - Correspondente, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2013 | 07h32

GENEBRA - O desvio de dinheiro da renda de amistosos da seleção brasileira acabou depositado em Andorra, um paraíso fiscal. Documentos consultados com exclusividade pelo Estado revelam que, depois do envolvimento de empresas registradas nos Estados Unidos e direitos comprados por uma companhia com sede nas Ilhas Cayman, o destino de parte da renda dos amistosos era uma conta no principado encravado entre a Espanha e a França.

Na semana passada, a reportagem do Estado revelou com exclusividade que um terço das cotas de 24 jogos da seleção desde novembro de 2006 era redirecionado para a Uptrend Development, uma empresa com sede nos Estados Unidos e representada por Sandro Rosell, atual presidente do Barcelona e velho amigo do ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

O Estado também revelou que a empresa registrada em Nova Jersey nem sequer existia fisicamente e que, mesmo assim, recebia em torno de US$ 450 mil (R$ 1,09 milhão atuais) por jogo amistoso da seleção da companhia ISE, com sede nas Ilhas Cayman e que negociou com Teixeira os direitos sobre os amistosos do Brasil até 2022.

Agora, novos documentos revelam que a empresa Uptrend solicitou à ISE que fizesse grande parte dos depósitos de seu acordo milionário em Andorra, um paraíso fiscal com leis que permitem o sigilo de contas bancárias e seus proprietários. O destino do dinheiro, segundo os documentos, foi o ANDBANK, que conta ainda com escritórios em São Paulo. O banco foi procurado pela reportagem, mas até o fechamento desta edição não havia dado uma resposta. O Barcelona também não respondeu às solicitações para que se manifestasse sobre os documentos obtidos pelo Estado e assinados por seu presidente. 

PROPINA

Não é a primeira vez que negócios polêmicos envolvendo a CBF registram transações financeiras em Andorra. Documentos da Justiça suíça apontam que Teixeira era um dos principais beneficiados no caso da empresa de marketing ISL e de propinas pagas a dirigentes esportivos. E o pagamento ocorria por meio de uma empresa que ele teria estabelecido em Andorra. Um intermediário era usado para transferir, em nome do brasileiro, o dinheiro para suas contas. O agente retirava os ativos em espécie e alimentava contas de Teixeira. O nome do banco não foi revelado.

No total, a Justiça suíça identificou transferência de mais de US$ 4,7 milhões (R$ 11,4 milhões pelo câmbio desta quinta-feira) para a conta 4004028 em nome de Ricardo Terra Teixeira em Andorra. Os subornos ainda eram alimentados por outras quatro contas abertas entre 1998 e 2001. O caso chegou a ser bloqueado, com ações na Justiça questionando a transferência de documentos de Andorra para a Suíça. Mas o recurso foi derrubado e, em 2008, Ricardo Teixeira foi indiciado - assim como seu ex-sogro João Havelange, que presidiu a Fifa por 24 anos.

Pessoas envolvidas com a comissão técnica da seleção revelaram, em condição de anonimato, que não foi por acaso que em 1998 a CBF organizou um amistoso contra Andorra a uma semana do início da Copa do Mundo. Teria sido um "agrado" de Teixeira às autoridades do principado.

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