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Dinheiro, paixão, poder

Palmeiras não pode repetir erros do passado em relação com patrocinador

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

12 Fevereiro 2017 | 06h00

O tema é delicado, o terreno pantanoso, e grande o risco de tropeçar em erro, tanto para elogiar quanto para levantar suspeitas. Mas ignorá-lo significa trair o leitor. Então, vamos lá. A renovação do contrato de patrocínio entre Palmeiras e Crefisa/FAM chamou a atenção pelos valores sugeridos, não oficiais, tampouco desmentidos: cerca de R$ 72 milhões para 2017 e R$ 78 milhões para o ano que vem. Fora os prêmios extras por títulos e a ajuda pontual em contratações e despesas com jogadores.

A olho nu trata-se de jogada de mestre do clube, até pouco tempo atrás na pindaíba e atolado em dívidas. Salvou-o, em parte, o dinheiro graúdo colocado pelo ex-presidente Paulo Nobre a juros baixos, além de acordos com tevê, rendas do estádio e o sucesso do Avanti!, o programa de sócio-torcedor.

A presença da empresa que pertence a um casal de torcedores palestrinos entrou nesse pacote de boas notícias desde 2015. Na época, a negociação era muito vantajosa e já despontava como indício de valorização estupenda da camisa verde. Isso por igualar-se ou até superar diversos acordos semelhantes de concorrentes, a maioria por meio da Caixa Econômica Federal, que investe em times no País todo. Como bônus, veio o paraguaio Barrios, que custa uma nota brava ao patrocinador.

Como é praxe nas bandas do antigo Parque Antártica, calmaria não costuma durar. Houve atritos entre Nobre e Leila Pereira, uma das sócias da Crefisa, e a ruptura não se deu por causa da turma de bombeiros. Com a troca de comando na cúpula alviverde, apararam-se arestas. Maurício Galiotte, o novo presidente, está de mãos dadas com o anunciante, à custa de ter rompido com o antecessor. Isso é Palmeiras.

Daí entra o caminhão de dinheiro – e, sempre que tem bufunfa no meio, vem o turbilhão de reações. Dentre as quais, comemoração, jactância, dúvidas, inquietações, inveja até, por que não?, pois é sentimento humano. O Palmeiras está no centro das atenções, porque contrata vorazmente, e a última tacada foi trazer Borja, com a inequívoca participação da Crefisa.

Em princípio, não há irregularidade nem imoralidade nesse pacto. A companhia, privada, tem suas metas de marketing e expansão; e, oficialmente, se considera muito satisfeita com o retorno obtido ao expor a marca no Palmeiras. Nessa condição, tem autonomia para gastar quanto acha suficiente. Com comparação simples, a Rede Globo compensa Flamengo e Corinthians com somas muito superiores aos demais, por avaliar que são times que lhe proporcionam ótimos índices de audiência. Questão de mercado.

A euforia palmeirense não impede que se façam ponderações. A primeira e mais óbvia: se houver traço de transação pouco transparente, que a Receita entre em ação. Hoje os mecanismos oficiais para vasculhar operações turvas são sofisticados. Mas, se tudo estiver dentro da lei, bola pra frente.

No entanto, ninguém dá dinheiro de graça. Sempre há contrapartida. A patrocinadora do Palmeiras alega que só quer o engrandecimento de ambos os lados e afirma que o lucro vem da divulgação dos produtos financeiros e educacionais. E paga por ter exclusividade em todas as mídias.

Ao mesmo tempo, o casal concorre a vagas no Conselho, de olho, quem sabe?, em futuro pleito para a presidência. Tem o apoio de representantes da velha guarda nesse projeto de poder. Nada anormal, se seguir trâmites éticos; e sobretudo se não ferir a autonomia da agremiação em suas decisões e estratégias.

O Palmeiras tem direito de voos atrevidos e de formar esquadrões. Só não pode atrelar os sonhos ao gosto de eventuais patrocinadores. Amanhã ou depois, vão embora, levam craques e... retornam as vacas magras. Que não se repitam erros do passado. No mais, boa sorte para todos.

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