Nilton Fukuda/Estadão
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Direito de torcer

Festejar a conquista do seu time não quer dizer aceitar o futebol mostrado em campo

Robson Morelli, O Estado de S. Paulo

10 de agosto de 2020 | 05h00

O torcedor tem o direito de torcer para o seu time em qualquer situação. A paixão pelo futebol faz com que isso seja possível, independentemente das condições do que se vê em campo. Digo isso diretamente aos torcedores do Palmeiras e àqueles que acham que não deveria haver festa em razão do mau futebol apresentado pelo time no Campeonato Paulista. Diria o mesmo aos corintianos, se o time do Parque São Jorge tivesse vencido o Estadual 2020 na decisão do sábado contra seu rival.

A esperança, a agonia, a comemoração do gol, a aflição do empate e o batimento acelerado do coração na hora dos pênaltis, tudo isso faz parte e move o torcedor nesta paixão, muitas vezes sem limites e na maioria dos casos passada de pai para filho.

A solidão e o isolamento, aliados à secura do futebol durante a paralisação por causa da pandemia do coronavírus, deixaram o torcedor com mais saudade do seu time e do futebol. Daí a festa necessária na conquista de um título. Vale para o torcedor do Palmeiras, mas também vale para todos os outros torcedores dos times que já ergueram taça na retomada, como Flamengo e Bahia, por exemplo. E dos demais que ainda farão o mesmo nos dias que se seguirão neste mês em meio ao começo do Campeonato Brasileiro.

A alegria pede passagem no futebol. Não podemos tirar isso do torcedor. É justo, portanto, que todos eles festejem os Estaduais. É legítimo. É esperado. Não deixa de ser recompensa por acreditar. O torcedor sempre acredita.

Futebol é coisa séria em países como o Brasil, uma religião. E nesses tempos de poucas alegrias e muitas mortes (100 mil no País) por causa da covid-19, ele parece imprescindível para preencher corações vazios, renovar esperanças, provocar novos desafios, nos empurrar para frente, mesmo que em pequenos lapsos de tempo, quando a realidade dura da vida fica para trás e a paixão fala mais alto. Isso explica as aglomerações nas imediações dos estádios, os fogos de artifícios ou o grito de ‘campeão’ da varanda e janela.

Para muitos, a felicidade também está no futebol, numa partida de 90 minutos e numa conquista de campeonato.

 

É preciso, no entanto, ter cuidado com essa doença que assola o mundo e mata brasileiros. Fica o puxão de orelha. Torcer é tão importante quanto jogar. Não se disputa uma competição apenas para ganhar. Se disputa para alegrar os seguidores da equipe. Ponto.

Mas torcer não significa aceitar o nível do futebol apresentado atualmente no Brasil. Palmeiras e Corinthians, os dois finalistas do Estadual, por exemplo, mostraram futebol pequeno perto da grandeza de suas histórias e peso de suas camisas. Foi assim durante os 180 minutos das duas partidas da decisão e ainda na cobrança de pênaltis no Allianz. Pouco se viu em campo do campeão Palmeiras, o que gera muitas dúvidas de sua torcida no Nacional que abre suas portas. Da mesma forma, os jogadores do Corinthians não honram a tradição de elencos passados. Não há jogadas. Não há dribles. Há pouquíssimos chutes a gol. Em compensação, há muitos toques para trás e passes na defesa. Há uma infinidade de erros e nenhuma vontade de correr em direção ao gol, como se viu em algumas tentativas de contra-ataques do Palmeiras.

Palmeiras e Corinthians não estão sozinhos nesse deserto. Os times oferecem migalhas para seus torcedores, que não deveriam aceitá-las. É preciso cobrar mais e mais.

Os treinadores brasileiros, que poderiam ajudar a melhorar esse nível como sempre fizeram, estão muito enciumados com o trabalho dos colegas estrangeiros. São responsáveis pela mediocridade de seus atletas porque não conseguem sair do óbvio em campo, como mostraram Luxemburgo e Tiago Nunes na decisão do Campeonato Paulista.

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