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Diretor do Corinthians vê situação financeira imprevisível e aguarda a chegada de R$ 120 milhões

Clube comemora a venda do meia Pedrinho para o Benfica e o fato de já não contar em seu fluxo de caixa com o dinheiro de bilheteria, usado para pagar a Arena em Itaquera

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2020 | 07h00

Em crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, o Corinthians corta despesas e aguarda a chegada de quase R$ 120 milhões nos próximos dias referentes à venda do meia Pedrinho para o Benfica, de Portugal. O clube alvinegro reduziu o salário de funcionários e jogadores, além de ter encerrado contratos de modalidades que estão paradas, como o basquete que teve a temporada nacional finalizada ainda no início de maio. Em contato com o Estadão, o diretor financeiro do Corinthians, Matias Romano Ávila, admitiu que a situação atual é "imprevisível". Por outro lado, ele comemorou o fato de o clube já não contar em seu fluxo de caixa com o dinheiro de bilheteria, usado para pagar a Arena em Itaquera. Outros times sofrem sem a renda de jogos durante a paralisação que teve início em março no Brasil.

"Estamos enfrentando várias dificuldades. Toda vez que tem uma situação como essa, acaba tendo uma situação imprevisível. Não sabemos quanto tempo mais isso vai durar, quando as competições vão voltar a ocorrer. Como resolver isso? Tem de procurar cortar as despesas, porque as receitas foram interrompidas, mas as despesas continuam. Se tem um caixa reforçado, dá para contornar algumas situações. O futebol não tem lucro: é receita e é despesa", afirmou o dirigente.

Segundo Matias Ávila, o Corinthians não demitiu funcionários até o momento. Amparado pela Medida Provisória 936, que permite a redução de salários durante a pandemia, o clube cortou até 70% dos vencimentos dos profissionais - com piso de R$ 3 mil - e 25% dos jogadores. O Corinthians ainda encerrou a ajuda de custos a atletas amadores e de outras modalidades e aguarda para saber se haverá competições de base. Caso não tenha torneios em 2020, a tendência é de que alguns jovens jogadores e profissionais das comissões técnicas sejam desligados.

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Temos algumas despesas do ano passado para pagar, como férias e direitos de imagem de jogadores e impostos. Temos de deixar a casa em ordem
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Matias Ávila, diretor do Corinthians

"Ainda estamos em fase de planejamento. O que fizemos até agora foi para preservar empregos. Sabemos como entramos nessa situação, mas não sabemos como vamos sair. Estamos fazendo tudo com os pés no chão. Vamos fazer um plano de transição que envolve competições futuras. Aquelas que forem ocorrer, vamos manter. As que não forem ocorrer, vai ter que haver uma redução. Será nessa linha. Mas deixando claro que o Corinthians não vai 'queimar' atletas e comissão técnica", disse Matias Ávila.

O dirigente corintiano conversa com o presidente Andrés Sanchez e até com diretores financeiros de outros clubes para avaliar as medidas. Em relação a outros times, Matias Ávila cita dois fatores positivos para o Corinthians neste momento de crise. O primeiro é que o cofre alvinegro vai receber nos próximos dias quase R$ 120 milhões por causa da venda de Pedrinho para o Benfica, de Portugal, acertada ainda em março por 20 milhões de euros. A alta da cotação da moeda europeia favorece o Corinthians, que negociou a antecipação do recebimento do valor e só repassará os 30% que pertencem ao empresário Will Dantas em 2021.O socorro financeiro será usado, principalmente, para quitar dívidas passadas. Em 2019, o Corinthians apresentou um déficit de R$ 177 milhões e fechou o ano com dívida de R$ 665 milhões, sem considerar o financiamento do estádio.

"Temos algumas despesas do ano passado para pagar, como férias e direitos de imagem de jogadores e impostos. Temos de deixar a casa em ordem", projetou Matias Ávila, que não acredita que o dinheiro possa ser usado para reforçar a equipe. "Hoje, infelizmente, é mais fácil a gente falar de saída do que de contratação".

O outro alento é que a previsão orçamentária alvinegra já não contava com a renda de bilheteria, porque os valores arrecadados são destinados ao pagamento de parcelas para a Caixa Econômica Federal. O Corinthians não realiza os depósitos desde julho do ano passado, em razão da divergência na negociação que foi parar na Justiça - o processo está suspenso a pedido de ambas as partes. No entanto, a ausência da arrecadação com bilheteria pode dificultar o pagamento do financiamento no futuro.

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Não fomos afetados neste momento pela falta da renda de bilheteria. Como estamos em discussão, o financiamento está paralisado
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Matias Ávilar, diretor do Corinthians

Em quatro jogos como mandante e tendo torcida no Campeonato Paulista, o Corinthians teve renda líquida de quase R$ 3 milhões. O valor corresponde a praticamente metade da parcela mensal que o clube precisa depositar para a Caixa por mês. Em uma projeção de quatro partidas em casa por mês, o Corinthians pode ter deixado de arrecadar mais de R$ 10 milhões durante a paralisação causada pela pandemia. O banco estatal cobra, ao todo, R$ 536 milhões do Corinthians. A proposta do clube é pagar R$ 6 milhões em meses com jogos e R$ 2,5 milhões em meses sem partidas.

"Eles têm nossa oferta e estamos aguardando a resposta. Essa conversa foi adiada por causa dessa pandemia. Os esforços dos dois lados estão sendo direcionados para o coronavírus. Não fomos afetados neste momento pela falta da renda de bilheteria. Como estamos em discussão, o financiamento está paralisado", afirmou Matias Ávila.

Análise: Pedro Daniel, líder de esportes da consultoria Ernst & Young

Esse período está trazendo um plano de liquidez no mercado mundial. Não é uma crise local, é uma pandemia, e os clubes são impactados por diversos fatores, como janela de transferência, com mais incertezas, e o retorno com jogos e planos de sócio-torcedor. O sócio no Brasil é muito atrelado ao benefício de ingressos, então a falta de jogos tem impacto direto. Os patrocínios e publicidade ficam prejudicados, porque as outras indústrias também estão neste momento complicadas. A crise também leva à diminuição do poder de compra - consequentemente deve ter diminuição na receita do pay per view, que é uma receita importante para os clubes.

Em relação à bilheteria, os outros clubes têm receita que vão diretamente para seus respectivos caixas. O Corinthians, em termos operacionais e fluxo de caixa, já estava acostumado a operar sem a renda de bilheteria. Mas uma outra visão é de que o Corinthians deixa de pagar o financiamento e isso vira preocupação grande para médio e longo prazos.

A pandemia está forçando a transformação dos clubes digitalmente. Alguns têm diversificado no sentido digital. O clube, como um todo, é grande gerador de conteúdo, e muitas vezes esse conteúdo é o jogo. Mas hoje no mundo digital poderiam explorar mais ou estar mais preparados para esse ambiente. Temos séries de diversos times pelo mundo, por exemplo. Na Netflix, tem série sobre o Sunderland, da Inglaterra, que é um clube sem grande representatividade, mas que conseguiu criar um conteúdo interessante.

Aqui no Brasil, o sócio-torcedor também deveria ser um programa de relacionamento, mas está muito atrelado aos jogos. O Bahia lançou um programa legal que quem continuar sendo sócio-torcedor durante a pandemia terá benefícios no futuro, como poder acompanhar treinos e ter descontos em produtos. É preciso compensar a entrega que estão fazendo, já que os campeonatos estão paralisados.

É difícil fazer um prognóstico, mas é claro que haverá um choque em termos de valores de salários, contratações e transferências. A gestão de risco é uma coisa que tem sido mais discutida, mas precisa ter regulação mais forte do mercado, como o fair play financeiro, trazendo lisura e transparência. Hoje você vê muitos clubes com doping financeiro e isso acaba gerando um colapso do sistema, porque não temos um mercado regulado.

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