Alexei Druzhinin/EFE
Alexei Druzhinin/EFE

Dirigentes da Fifa continuam sendo 'os reis do camarote', mesmo após escândalos

Cartolas mantêm rotina de luxo e ostentação durante a Copa do Mundo da Rússia

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 05h00

No lobby de um luxuoso hotel de Moscou, um dos cartolas do órgão mais importantes da Fifa espirra. Segundo depois, um dos funcionários corre segurando com as duas mãos, como se fosse um tesouro, uma caixa de couro com lenços, quase fazendo uma reverência ao dirigente para que ele possa limpar o nariz. Junto com a pressa em servir, um desejo de “saúde”.

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Três anos depois de ser abalada pela prisão de seus dirigentes e estar “clinicamente morta” – nas palavras de seu próprio presidente, Gianni Infantino –, a Fifa pouco mudou no estilo de vida dos dirigentes.

Tudo parece ter de remeter ao luxo e ostentação. Os hotéis usados para sua corte ainda são os mais caros da cidade e até as suítes de luxo estão reservadas para os auditores supostamente independentes da Fifa. Enquanto isso, motoristas com ternos impecáveis e seguranças promovem um balé de idas e vindas com carros negros pelas ruas de Moscou.

Para classificar os dirigentes mais importantes e o restante, a Fifa dividiu o grupo de mais de mil pessoas entre “ouro” e “prata”. “Nunca menos do que prata para um dirigente de futebol”, brincou um dos responsáveis pela organização. O convite aos eventos lembram documentos que fazem referências às monarquias.

 

Cada uma das 210 federações nacionais ganha ainda, por dia, até US$ 1 mil para gastos pessoais de seus dirigentes, o que não inclui transporte, alimentação, hotel ou passagem aérea. O dinheiro é mesmo apenas para o benefício pessoal de cada um deles. E ninguém precisa prestar contas de como usou o cheque.

A Fifa apresentou nesta semana números que provam que sua saúde financeira está resgatada, com uma receita recorde de US$ 6,1 bilhões. O presidente da entidade, Gianni Infantino, garantiu que 73% da receita será gasta com o futebol. Mas isso também inclui gastos para as operações das federações, compra de carros ou mesmo reforma de prédios de sedes.

Por ano, cada um dos 37 membros do Conselho da Fifa recebe US$ 250 mil para ir a três reuniões, além de voos em classe executiva e hotéis de luxo. Ao jornal The New York Times, uma das poucas mulheres no órgão, a italiana Evelina Christillin, admite que o valor não faz sentido. “Acho que ainda recebemos muito”, disse. Até houve um corte. Mas ele caiu de US$ 300 mil para os atuais US$ 250 mil.

A Copa de 2018 em Moscou deixa claro que as mordomias jamais sumiram para a aristocracia do futebol, mesmo ficando abafadas por alguns meses. Num jogo entre cartolas promovido pela Fifa durante a semana, para aproximar os dirigentes, a ordem era de que nada poderia faltar. Na beira do campo, garçons com gravata borboleta e bandejas de prata circulavam com garrafas de água para os “atletas” em campo.

Até mesmo a roupa é fornecida pela Fifa. Neste ano, um alfaiate e seu grupo de especialistas foi levado a Moscou para vestir os cartolas. Cada um deles era convidado a passar por uma ala do hotel para tirar as medidas e, depois, ir buscar o terno pronto. Nele, o nome “FIFA” é bordado com fios dourados.

PEDRAS PRECIOSAS

​Ao longo da semana, jantares e eventos para os dirigentes se proliferaram por Moscou. Num deles, Abobacar Camara, representante da Guiné – que já foi ministro de Defesa do país –, foi acompanhado da mulher. Vestida a caráter, ela chamava a atenção pelo número de pedras preciosas no pescoço, orelha e dedos. A Guiné é um dos países mais pobres do mundo. Em apenas dois dias na Fifa, o cartola recebe como benefícios em dinheiro o equivalente à renda média da população de seu país. Por ano.

Metade da população vive abaixo da linha da pobreza e 40% das crianças estão desnutridas. De 187 países avaliados pela ONU, Guiné é o 178.º pior em termos de índice de desenvolvimento humano (IDH).

Na quinta-feira, a reportagem do Estado foi a única a entrar na ala vip do estádio Luzhniki, na abertura da Copa do Mundo. Camarões, ostras, salmão e champanhe explicavam o motivo pelo qual, depois do fim do intervalo, centenas de cartolas nem se deram ao trabalho de voltar para assistir ao segundo tempo do jogo entre Rússia e Arábia Saudita.

Ali, presidentes de países semidemocráticos e verdadeiras ditaduras faziam questão de serem fotografados ao lado de ex-jogadores de futebol. Paciente, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, atendia a cada convidado, enquanto no centro de todas as atenções estava Vladimir Putin.

Quando o concerto acaba, a festa continua. Num dos hotéis praticamente fechados pela Fifa, a recepção atendia, a partir das 2h da manhã, meninas com roupas mínimas que se esforçavam em dizer ao funcionário o nome de quem iriam visitar.

Um dirigente com muitas Copas do Mundo nas costas admitiu que a prática não é nova. Ele revela que, nos anos 80, nos hotéis do Mundial, os estabelecimentos ofereciam um livro com as fotos das meninas que os dirigentes poderiam chamar. A cobrança? Bastava mostrar a credencial da Fifa. “Eram outros tempos”, disse.

 

 

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