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Antero Greco
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Disco riscado

O pessoal que curtiu muito música no vinil até a metade dos anos 80 lembra o que acontecia quando um sulco riscava. A agulha de diamante, sensível e leve, empacava, não saía do lugar e embicava no nhec, nhec, nhec , som horrível, repetitivo, irritante. Daí, a gaiatice popular criou a expressão disco riscado para referir-se a alguém que insistisse em abordar determinado assunto e não saísse da chatice.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2015 | 03h00

Os long-plays dessa espécie de plástico voltaram à moda – custam uma nota brava –, e a imagem do parágrafo acima fica compreensível e atual. E se aplica ao futebol. Durante a semana só se falou de maracutaia na arbitragem do Brasileiro e de complô para ajudar o Corinthians a conquistar outro título. Tema onipresente, em conversas de boteco, de escritório, de metrô, de ponto de ônibus, e explorado à exaustão em toda mídia. Mensagens furiosas foram trocadas em redes sociais e deixou em segundo plano até rotineiras espinafrações contra o governo. A que ponto se chegou!

Não é fora de propósito imaginar que, no começo da noite deste domingo, o tema a ocupar espaço de tevês e sites se restrinja a erros dos apitadores nos jogos da Série A. Não surpreenderá se, em vez de abordarmos os gols, os dribles, as estratégias de Palmeiras x Corinthians, ou do Fla-Flu, passarmos o tempo a vociferar contra a “roubalheira” de um torneio “comprado”. 

Aliás, existe um certo prazer do torcedor em detectar mutreta em qualquer jogo de futebol. Basta uma sequência de falhas de juízes e bandeirinhas, para vozes acusadoras se levantarem e gritarem: “Está na cara, tudo vendido!” Por falar nisso, você se recorda como era verdade irrefutável a perspectiva de o Brasil ser campeão do mundo no ano passado, porque a Copa estava comprada? Seria barbada. Só esqueceram de combinar com os alemães...

Não se trata de virar a cara para polêmicas ou irregularidades. Não seria besta de ignorar fatos marcantes. Quero dizer o seguinte: nessa lengalenga, passam batidos os acertos e os erros das equipes, as decisões sagazes ou atrapalhadas de jogadores e treinadores, as oscilações na classificação. 

No caso do dérbi paulista, há muito em disputa. Para início de conversa, o Palmeiras pode reabrir a briga pelo título nacional – não para si mesmo, pois pelo visto o sonho de hegemonia morreu no inverno com uma série de derrotas. Com 15 pontos a menos do que o líder, não lhe resta grande esperança. 

Mas, se ganhar mais uma vez do Corinthians em 2015, ajuda a recolocar Atlético-MG e Grêmio nas pegadas da taça. Como restarão 15 rodadas até o encerramento, esquentará a corrida. Fora a alegria de emperrar a vida do maior rival – e isso não tem preço.

Para o Palmeiras, há o benefício adicional de ajudá-lo ao menos a buscar uma vaga para a Libertadores de 2016. Serviria como prêmio de consolação para um clube que investiu os tubos em contratações e atraiu milhares de torcedores para seus jogos.

Isso do lado verde. Na parte alvinegra, empate ou vitória são alternativas excelentes, e viáveis. A rapaziada de Tite embalou, antes da virada de turno, e desembestou a ganhar e a marcar gols. É o melhor momento do ano, apesar das baixas. O trabalho de reconstrução tocado pelo treinador merece elogios, e vai muito além de ajuda extra de árbitros. 

O Palmeiras tem direito de prever sorte mais amena do que no tropeço (o segundo) diante do Goiás. Marcelo Oliveira terá retorno de Arouca, um dos pilares do meio-campo, e de Lucas, na lateral-direita; e fez bem, em teoria, ao optar por Zé Roberto na esquerda, no lugar de Egídio. Resta uma interrogação em torno de Lucas Barrios, que não desencantou. E a esperança de algo diferente recai sobre o jovem Gabriel Jesus.

Teste em Pernambuco. O Santos engatou recuperação esplêndida e se candidata ao bloco principal. Uma prova e tanto está marcada para Recife, no duelo com o Sport. Se passar, mesmo que não seja com louvor, vai atropelar favoritos.

 

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