Distante dos atos contra a Copa, paulistanos começam a decorar a capital

De forma modesta, primeiras ruas começam a ser pintadas e bandeiras aparecem nas janelas

Luiz Fernando Toledo , O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2014 | 13h11

SÃO PAULO - Eles são contra os gastos abusivos da Copa, mas estão com a seleção. Querem mais saúde, educação, transporte público de qualidade para o brasileiro, mas não negam a satisfação que um Mundial de futebol pode trazer ao País. A menos de um mês para a Copa do Mundo, moradores começam a esboçar as primeiras cores nas ruas de São Paulo, ainda que timidamente. 

Na Vila Arcádia, zona norte da cidade, uma bandeira um metro de altura comemora o torneio sozinha. Pertence a Osvaldo Bueno, proprietário da panificadora Vila União, na rua Laudelino Freire. "Sou apaixonado por futebol, mas acho que há outras prioridades como saúde e educação. A bandeira é pelo Brasil, pela seleção", diz.

Não muito longe dali, na Freguesia do Ó, o porteiro Ismael Santana faz os últimos preparativos para colorir a rua Oscar Camilo, onde mora. "O Brasil vai ficar bem visto lá fora", comenta, empolgado com o orçamento que tem feito com seu cunhado para começar a pintar. "Calculamos um gasto entre R$ 3 mil e R$ 4 mil entre tinta e mão de obra." O asfalto da via terá uma bandeira "gigante" do Brasil e o nome de todos os jogadores do time de Felipão. O custo, contou, será desembolsado por todos os moradores.

Já é tradição no condomínio residencial Parque dos Pássaros, zona norte da cidade, estender uma bandeira sobre o prédio frontal. O tecido parte do 23º andar e só acaba no segundo, num total de 69 x 17 metros. "Fazemos isso há 20 anos e todo mundo gosta", contou Ailton Felizardo, zelador do condomínio. Para os moradores, haverá ainda um telão para exibição de todos os jogos. O custo aproximado da festa: R$ 20 mil. "De gastos com a Copa já estamos fartos, então que a gente comemore ao menos", brincou Felizardo.

CENTRO

A reportagem do Estado circulou por bairros da zona norte e leste de São Paulo, além do Centro, mas não encontrou muitos pontos de decoração ainda. A rua Nova Barão é, de longe, a mais entusiasmada até o momento. Bandeiras de todos os países estão penduradas entre as grades do segundo andar do centro comercial. A decoração é estratégia para atrair estrangeiros. "Há muita gente tirando fotos. Qualquer estrangeiro que passar vai querer entrar aqui e ver a bandeira de seu país", aposta Zilda Pessoa, auxiliar na gerência da Nova Barão.

"Só na próxima reencarnação vai ter Copa no Brasil de novo. É a segunda vez que decoramos, mas é claro que com a Copa no País é diferente", explicou. Além das bandeiras, há balões com as cores do Brasil em toda a extensão da via, além de bolas de futebol que devem chegar em breve. A decoração começou dia 1º de maio e já tem surtido efeito. "Só das pessoas entrarem aqui, já há algum aquecimento nas vendas", explica.

Avenidas conhecidas do Centro, como São João e Ipiranga, passam ilesas pelas cores verde-amarelo da seleção. As iniciativas de decoração, até o momento, partiram dos comerciantes da região. A rua Santa Ifigênia, por exemplo, está repleta de bandeiras do Brasil do começo ao fim. Nas lojas, alguns funcionários vestem camisas de Neymar e companhia. O Bazar das Câmeras já superou em 40% o faturamento depois da iniciativa, informou o gerente Alessandro Rodrigues. "Oferecemos brindes como camisetas, bola e chapéus da Copa." A estimativa é de um lucro de até 60% até o mês de junho, quando começa o Mundial.

SEM PROCURA

Com a agenda fraca, o grafiteiro Alexandre Garcia esperava mais da Copa. "Faço grafite da Copa do Mundo há 16 anos e este é o ano mais fraco de todos. Ainda não fiz nenhum em ruas, apenas em muros e a pedido de empresas." O profissional começou os trabalhos em abril, passando por escolas, bares e restaurantes. "Deve ter alguma coisa a ver com esses protestos. Tanta coisa para fazer aqui no Brasil. A Copa só vai durar um mês", reclamou. Em 2010, Garcia diz ter feito trabalhos nos bairros de Carrão, Penha e Itaquera, além de Suzano.

"Este ano está mais fraco. Não saí de Itaquera ainda", reclamou. Em visita rápida às ruas do bairro onde está a Arena Corinthians, estádio da Copa em São Paulo, não houve registro de pinturas em ruas. O único grafite, feito em escola particular, é de Garcia.

PODER PÚBLICO

A Prefeitura de São Paulo entra na jogada com uma iluminação especial em pontos estratégicos da cidade. Desde o dia 4 de março, a 100 dias da abertura da Copa, cinco pontos da capital recebem ornamentação a pedido da Fifa: Monumento às Bandeiras, Prefeitura, Viaduto do Chá, Teatro Municipal e Praça da Sé. Todos eles receberão tonalidades verde e amarelo até o dia 13 de julho, dia da grande final no Maracanã.

Quem passa pela Radial Leste vê os muros que separam a Linha 3 - Vermelha do Metrô da via se colorirem desde a estação Patriarca até o Itaquerão. Projeto da Secretaria Estadual do Turismo e do Comitê Paulista da Copa, o grafite deve se estender por quatro quilômetros, visível apenas aos motoristas, e não aos passageiros do metrô. Ainda há grafiteiros trabalhando nos muros, que deve continuar pintado após o Mundial.

PROTESTOS

As cores da bandeira do Brasil dividem espaço com grafites em protestos à Copa. Mesmo na Radial Leste, é possível ver uma arte, de artista desconhecido, com a inscrição em inglês "Copa do Mundo para quem?". Na Avenida Casa Verde, um estabelecimento comercial grafitou em seu muro uma bandeira do Brasil com os dizeres "Ordem no Congresso", repúdio "à política em geral, insatisfação com a corrupção e com os acontecimentos vistos no jornal."

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